5° DIA EXPEDIÇÃO TRANSMANTIQUEIRA: de Campos do Jordão (São Paulo) a Pilões (São Paulo)

Antes de descrever como foi o quinto dia, vou falar brevemente sobre minha experiência nesses oito dias. Eu me diverti muito, é verdade, mas minha conclusão é que ir para uma Expedição não é a mesma coisa que entrar em um parque de diversões ou percorrer uma simples trilha de Mountain Bike. O fato é que eu vivenciei momentos totalmente imprevisíveis e arrebatadores. Foi um período de grande aprendizado e uma experiência fantástica de superação dos limites físicos e psicológicos.
Uma coisa que me preocupava nos três meses que antecederam a data da viajem era o meu preparo físico, pois sabia que era um "marinheiro de primeira viajem" em Expedições e, antes desta aventura, jamais havia feito um pedal de nível cinco por mais de dois dias seguidos. Então iniciei uma intensa rotina de treino na academia com foco em força e resistência, além  das trilhas e pedaladas longas no asfalto. Esse treino me deu mais confiança e foi de extrema importância para conseguir pedalar durante horas e horas por estradas de terra, enfrentando subidas e descidas que pareciam intermináveis.
Mas o treino não é tudo. No final das contas, o que realmente fez a diferença e se tornou o combustível para que conseguisse completar com sucesso todo o roteiro da expedição foram o companheirismo e o incentivo dos demais Expedicionários. Éramos nove pessoas com personalidades totalmente diferentes umas das outras, porém unidas no mesmo objetivo e dispostas a tornar este evento em um acontecimento único e inesquecível em nossas vidas. Além disso, o fato de a cada dia conhecer pessoas incríveis, lugares pitorescos e apreciar de perto toda a exuberância e beleza da nossa terra, nos deixava sempre motivados para o dia seguinte.
E foi assim que chegamos ao quinto dia. Ah... este dia nos reservava grandes surpresas! O nosso objetivo era pedalar de Campos do Jordão até Aparecida e depois retornar para Guaratinguetá para dormir por lá. Às nove da manhã estávamos todos concentrados na Praça Castro Alves, em frente à pousada Estrela Guia, onde nos hospedamos. A essa altura já havíamos retirado a maioria dos acessórios colocados para resistir ao frio intenso que ainda predominava nas primeiras horas da manhã. O sol já brilhava e o céu estava azul e com poucas nuvens.
Seguimos inicialmente por uma estrada de asfalto até entrarmos no Parque Estadual Campos do Jordão.  O Parque, também conhecido como Horto Florestal, é uma área de preservação que ocupa aproximadamente um terço de toda a área do município. Ao longo da nossa travessia pelo parque, passamos por diversos cursos d'água, ás vezes parando para abastecer os nossos reservatórios, e vimos lugares bastante pitorescos como o Bosque Vermelho. O bosque tem esse nome devido a coloração das folhas de uma espécie de Pinheiro de origem americana que foi plantada ali na década de 50, como parte de um programa de reflorestamento. Depois de tirar algumas fotos, pedalamos até o topo da serra, passando pela divisa dos municípios de Campos do Jordão (SP) e Wenceslau Braz (MG). Mais alguns quilômetros e estávamos no município de Delfim Moreira, numa estrada que corta a Fazenda da Onça, que é uma base de treinamento do Exército. Já passava do meio dia e então paramos para lanchar e descansar um pouco. Em seguida pedalamos por duas horas enfrentando mais algumas subidas árduas até chegar à Fazenda Boa Esperança. Neste ponto já havíamos pedalado por 45 km desde Campos do Jordão.
A fazenda, localizada no roteiro do Caminho da Fé, possui uma estrutura de chalés para abrigar os peregrinos e chama a atenção pela beleza natural. Assim que entramos demos de cara com um rio que serpenteava por entre pinheiros e araucárias com uma linda cachoeira.  Havia também ali à beira do rio um pequeno restaurante servindo aquela deliciosa comida mineira e, como a fome já apertava novamente, ficamos bastante animados. Para nossa surpresa, não pudemos saborear o Buffet, pois a quantidade estava certa para os hóspedes. Bom, é claro que não sairíamos dali com fome, então pedimos calabresa frita com farofa, e este foi o nosso almoço neste dia.
Depois de muita resenha e uma breve sessão de fotos, partimos para a trilha novamente, inicialmente empurrando a bike numa subida bastante íngreme e escorregadia. O local era bastante úmido e foi aí que encontramos lama pela primeira vez no caminho. Mas afinal era o ingrediente que faltava na nossa expedição!  A trilha cortava uma densa floresta e por diversas vezes cruzamos pequenos riachos que desaguavam em um rio que descia à nossa direita, muitas vezes trazendo à lembrança as trilhas da Reserva Sapiranga, no litoral norte baiano. Em determinado ponto cruzamos este rio a pé e continuamos no single-track até sairmos num estradão. O GPS indicava a passagem por dentro de uma fazenda não muito distante dali. Tomando o caminho à esquerda, logo chegamos à Fazenda São Francisco dos Campos de Jordão. A portaria da fazenda estava fechada e trancada com fortes correntes. Uma placa dizia enfaticamente "é proibido entrar...e circular com bicicletas" e o local era monitorado por câmeras. E agora? Ficamos ali algum tempo  ponderando se seria prudente pular a porteira, situação muito comum no mountain-bike, até que apareceu um funcionário que nos deu a notícia. Aquele era realmente o caminho dos peregrinos até algum tempo atrás, mas a fazenda foi adquirida por um empresário estrangeiro e a passagem foi fechada. Restava-nos agora voltar pelo estradão dando a volta pela fazenda até sair novamente no caminho dos peregrinos, o que iria aumentar o trajeto em cerca de dois kilômetros. Retornamos de certa forma inconformados, seguindo a descrição fornecida pelo funcionário da fazenda, porém alguns metros à frente havia uma estradinha à esquerda e o espírito aventureiro do Mural fez com que iniciássemos um pequeno "perdidão", na esperança de dar a volta na fazenda por ali. Passamos por uma porteira e subimos a serra por uns dois km até percebermos que estávamos em meio a um "mar verde", pois não havia nada a não ser floresta até onde nossa vista alcançava e não havia indicação no GPS de que estávamos no caminho certo. Como já estava próximo o pôr do sol, resolvemos não arriscar mais e descemos novamente.
Retornando pelo estradão, cruzamos novamente com a trilha mapeada no GPS. A partir daí  observamos que haviam pequenas setas indicando o Caminho do Romeiros. Num ponto bem alto da serra, Elson anunciou: "pessoal, cuidado pois vamos encarar agora um grande DOWNHILL. Chequem os freios e mantenham distância uns dos outros".  Tal foi a expectativa gerada, mas não sabíamos realmente o que nos esperava. A realidade é que o caminho era tão difícil e possuía tão poucos trechos "pedaláveis" que levamos quase quatro horas para vencer os quatro kilometros até a base da serra. Sim, usamos muito a bike, mas dessa vez como um "cajado" para não escorregar e cair. Alternando alguns pequenos trechos de subidas, os quais literamente nós escalávamos, quase todo o tempo estávamos descendo por uma vala estreita que cortava a floresta, com pedras soltas e degraus de até um metro de altura. Inicialmente estávamos bem descontraídos, mas à medida que o tempo passava a tensão começou a aumentar devido ao receio de acabar as baterias das lanternas ou alguém se acidentar. Não podíamos descuidar por um segundo sequer. A tensão só diminuía quando parávamos para descansar.  Você já imaginou uma parada para descanso a cada um km de trilha? Pois foi isso mesmo que aconteceu. Mas nessas paradas, bastava desligar as lanternas e, em meio à escuridão total,  relaxar contemplando o imenso céu estrelado.
Por volta das 22h30 chegamos à base da serra, na vila de Pilões, bastante exaustos e famintos. Pedalamos 61 km com uma altimetria acumulada de 1566 metros, portanto teríamos que achar guarida ali mesmo  e adiar a ida à cidade de Aparecida para o dia seguinte. Passamos por uma casa onde haviam algumas pessoas reunidas e pedimos informações. Um morador local nos indicou a pousada da dona Sueli que ficava ao lado da Capela de São Sebastião. Ao chegarmos na casa da dona Sueli, fomos tão bem recebidos que a emoção e os sentimentos de agradecimento, alívio e superação tomaram conta de todos. Um expedicionário de pôs de joelhos em frente à capela em sinal de gratidão. Aquela senhora era como um anjo colocado em nosso caminho. Ela e o marido já estavam dormindo, mas prontamente se dispusera a preparar uma refeição, acender uma espécie de caldeira a lenha para esquentar a água e preparar o quarto para dormirmos. Após lavarmos as roupas sujas e tomarmos um bom banho, lá estávamos nós à meia noite comendo macarrão e arroz com calabresa e banana, e relembrando os acontecimentos do dia. Vale lembrar que dona Sueli ficou até as três da manhã preparando bolos para o nosso café.
Agradeço ao Autor da Vida pela saúde e oportunidade de viver estes momentos inesquecíveis com pessoas tão especiais.
Parabéns a todos os expedicionários e à coordenação do Mural de Aventuras por todo o trabalho exaustivo de escolha do roteiro e planejamento. Ah! Apenas lembrando: Elsão, você ainda está nos devendo aquele DOWNHILL !!! Rogério Fernandes.
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3 comentários:

Elson disse...

4km em 4 horas! Esse dia da expedição entrou para a história do Mural como um dos mais radicais que já enfrentamos. Foi uma aventura que colocou toda a nossa experiência de muitas expedições a prova. Conseguimos sair da adversidade com sabedoria, calma, garra e companheirismo. Esse é o espírito do Mural de Aventuras!
Rogério, sua resenha está excelente! Parabéns, conseguiu transmitir como foi esses momentos de grande aventura. Bora Mural!

SERJÃO disse...

Rogério, que escrita fascinante, envolvedora, parabéns..., este dia da nossa EXPEDIÇÃO, foi um dia IMPAR que varou pela noite com muita garra, paciência, determinação e principalmente nossa SOLIDARIEDADE, EU posso muito bem EXPRESSAR O carinho que tenho por tudo que o mural de aventuras se propõe a fazer e o FAZER com muita PROPRIEDADE, de conseguir essa hegemonia de forças constantes ao longo dos nossos dias de irmandade!!! parabéns ROGERIO,sua resenha está entre as melhores que já li aqui no MURAL, e vc ELSON, meus parabéns de nos proporcionar uma vida diferente no melhor grupo de MTB que conheço!!!

Renato disse...

Todos os dias da expedição teve uma particularidade, mas esse dia pode se dizer que foi tudo ao extremo. Foi o dia mais difícil, exaustivo e tenso... Devido aos problemas da mudança da trilha original, iniciamos a subida da serra já anoitecendo.... muito difícil a escalada empurrando a bike no escuro, gastamos quase 3 horas subindo... em seguida, foi a descida, muito difícil e tenso!!!! Cada passo que conseguíamos dar, era uma vitória o avanço. O grupo todo esteve de parabéns, todos estavam tensos mas manterão a calma e a união... Elson como sempre soube lidar com muita expertise nas horas mais tensas, e dosou de forma certa as paradas quando viu que a meta do dia passou a ser a chegada no pé da serra... E Reinaldo Cezimbra sempre falando: "relaxe vai dar tudo certo, é isso que tem que ficar". Depois desse dia podia vir qualquer coisa, que iriamos superar! Rogério Fernandes, a resenha ficou show... foi isso mesmo que passamos, dia muito tenso e exaustivo... a chegada na casa da Sueli foi simplesmente emocionante!!!