2° DIA EXPEDIÇÃO JALAPÃO: Cachoeira da Velha e Rafting no Rio Novo

O 2º dia da Expedição Jalapão foi reservado ao rafting no Rio Novo, aquele que seria o grande treino para os 30km a serem percorridos no Rio Sono no decorrer da expedição.  O pedal do primeiro dia havia sido uma mostra do que viria pela frente e a maioria encarou o domingo como um pequeno descanso para os dias seguintes. A maioria.  Particularmente, nunca fui muito fã de águas profundas, muito menos de águas profundas e revoltas. Entre alguns traumas de infância e a falta de habilidade para o nado, estava a falta de preparo para o rafting.
 Após mais de 90 km pedalados no primeiro dia de expedição, sob um imperdoável sol e sobre uma areia que parecia não ter mais fim, dormimos acampados numa fazenda que, segundo relatos, pertencia ao narcotraficante Pablo Escobar, e servia de refino e distribuição de coca nos anos 70. A fazenda, hoje, pertencente ao governo do Tocantins, fica a 9 km da cachoeira da velha, onde faríamos o rafting. O segundo dia de expedição era a promessa de um dia ‘light’ e o churrasco trazido pela turma do rafting em pleno deserto do Jalapão estava garantido. Estávamos sonhando com Coca-Cola.  No primeiro dia do rafting viria as corredeiras mais radicais (níveis 4 e 4+) e, melhor ainda, uma atrás da outra, em uma sequência de arrepiar até os cabelos de Elson.  A cachoeira é larga, imponente e faz um barulhão, e encontrava eco junto ao meu desespero.
Os companheiros e guias de rafting, Rafael e Fábio, chegaram assim que se anunciaram os primeiros raios de sol. Não havíamos dormido bem. Era a primeira noite da expedição dormindo nas redes, e a variação de temperatura com um vento frio de arrepiar sob as redes nos deixou preocupados. De fato, conforto é algo que quem pensa em pedalar no Jalapão deve esquecer. Pura brutalidade.
A equipe da Novaventura chegou ao nosso acampamento pronta para nos levar até a Cachoeira da Velha. Mas o Mural de aventuras veio ao deserto do Jalapão acima de tudo para pedalar, e nos recusamos a ir de carro até a cachoeira. Sendo assim, foram 9 km pedalando até a vista imponente da cachoeira, mais 3 km de pura areia até o ponto de partida do rafting. Foi no trecho de areia que os calos adquiridos na véspera da expedição começaram a dar os maiores sinais de vida. Era o prenúncio de que não seria uma expedição fácil para mim.
A cachoeira da Velha tem duas quedas em forma de ferradura, cada uma com mais de 20 metros de largura e, entre elas, uma árvore que conseguiu crescer a despeito da correnteza forte. No ponto de partida para o rafting, com todo mundo devidamente equipado, vieram as primeiras instruções. Meu coração queria sair pela boa e Kadjon, numa tentativa vã de me tranquilizar, afirmou ser salva-vidas nato e apontou para Alexandre, o médico do grupo. Meu desespero aumentou. Mas eu não tinha ido até o Jalapão para desistir assim. Cada grupo entrou em seus botes e foi remando em direção à cachoeira, na contra correnteza.  É claro que a correnteza empurrava a gente para fora, mas foi divertido ficar lá fazendo força e sentindo bem de perto (e sobre as nossas cabeças) a força e o estrondo da queda d´água.
Em seguida, ancoramos os botes na outra margem e fomos andando para trás da queda d´água, um lugar impressionante onde os respingos molhavam tudo e mal dava para conversar, tamanho o barulho. Um grupo de andorinhas estava agitado com nossa presença. E eu continuava agitado com a força das corredeiras.  
Era só o começo do rafting. Passado o momento de apreciação da Cachoeira da Velha, veio as descargas de adrenalina. Era hora da sequência de corredeiras tensas e cada guia reuniu seu grupo no bote para dar mil orientações sobre como a gente devia se portar nas descidas. Juro que essas orientações são mais assustadoras do que as corredeiras em si, mas imagino que esse seja o objetivo, para manter todo mundo na linha.
A cada corredeira dava uma saudade enorme de pedalar. Ao menos seria uma situação na qual eu teria controle. Enquanto o desespero aumentava Elson e Rei perguntavam a Rafael em que parte do Rio novo o bote iria virar. E eu, olhando atravessado para eles, pensei em voltar atrás. Mas já estava no bote. E Plech, agoniado como sempre, gritava no meu ouvido enquanto a força do rio nos impulsionava. Deu vontade de dar uma remada na cabeça dele. Brincadeira, eu sou da paz!
O rafting foi concluído com sucesso e o desespero passou. Era hora de montar as bicicletas e voltar para o acampamento. A má notícia é que não haveria coca-cola. Mas as cervejas estavam trincando a nossa espera.  A viagem estava só começando e o churrasco da tarde serviria como a grande concentração. Como dizia uma placa num remoto bar no meio da viagem: “No Jalapão não há WI-FI. Conversem entre si.”
O rafting não era mais desafio pra mim. Não até os 30 km de corredeiras  no próximo rafting que nos aguardavam adiante.  Os calos começavam a doer intensamente, tanto que não voltei da Cachoeira ao ponto de concentração pedalando. Preferi me guardar para os mais de 400 km que ainda faltavam. Eu não queria ficar no meio do caminho e não poderia prever até aonde poderia suportar. Mas eu estava pronto para brutalidade.
Fui o primeiro a chegar de volta à fazenda que foi nosso apoio por duas noites. Fui o primeiro Muralista a abrir uma cerveja gelada no Jalapão. Faltava o brinde, e enquanto eu esperava ansioso pelo restante do grupo que pedalava de volta fui contemplado por uma das mais belas cenas que já vi: em uma das muitas árvores baixas e retorcidas do cerrado, ao fundo do galpão que nos abrigava, um bando de pássaros-pretos trocavam canto como se estivessem familiarizados com a presença humana.  Felizmente, na verdade, eles não conhecem caçadores.  Cresci vendo e admirando esses pássaros em cativeiro, de modo que com a beleza da cena, talvez não consiga mais ver uma gaiola aprisionando um pássaro sequer.
 Os companheiros chegaram e fomos contemplados, graças aos companheiros de rafting Rafael e Fábio, com um feijão à moda Jalapense e uma deliciosa carne de panela. O churrasco duraria o resto da tarde, como durou o conserto dos pedais de Odi, que cansado de comprar terrenos no primeiro dia, preferiu não participar do churrasco para ajeitar a bike.
Passamos a tarde conversando sobre as lendas e os desafios do Jalapão que nos aguardavam. O papo estava maravilhoso. A quantidade de cervejas não seria suficiente para nossa sede. Enquanto bebíamos,  nosso companheiro “Plech câimbra” se concentrava sobre um  emaranhado de cordas, talvez adiando uma possível embriaguez. Kadjon não teria o mesmo raciocínio, e quase no final da tarde Elsão teve que levar o mesmo para o chuveiro enquanto ele misturava todas as suas piadas com a brutalidade do Jalapão. Mas as cervejas já estavam por terminar.
A noite chegou e enfim o companheiro  Kadjon recuperou os sentidos. Montamos as redes preocupados com o frio que nos atormentara na noite anterior. Precisávamos de uma boa noite de sono porque o terceiro dia prometia.  Acho que todos sonharam com areia e com o calor naquela noite. O churrasco da tarde não disfarçava a verdade nítida: O Jalapão é BRUTO.  Mas nós somos o Mural de Aventuras. Esron Carvalho, Nino. Vulgo Pé de Chinelo.
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6 comentários:

Iane Sabrina disse...

Nino, você resolveu ir logo no grupo de Elson e Rei. Suas palavras fizeram com que eu me imaginasse nessa aventura. Não me faltou vontade pra ir com vocês. As imagens nos mostra os detalhes entre as linhas da resenha. Estão todos de parabéns!

Zé bezerra disse...

Pé de Chinelo!! Massa! Sabrina uma vez fisgado pelo bicho da aventura sua alma jamais se libertará! É essa fissura que denuncia nosso contagio! Parabéns aventureiros!

Giulyano disse...

Sensacional, essa do rafting no meio do Jalapão deve ter sido muito legal, lembrando que o nome é Mural de AVENTURAS. Excelente resenha. BMMP!!!

Diomedes Bassan disse...

Velhinho, Eu (John) e a Rúbia (Rubi) não paramos de rir e "passear" na BRUTALIDADE do Jalapão com vocês. Parabéns! Também pedalamos e andamos por terrenos tais, por isso sabemos exatamente o que disse sobre os calos, câimbras, temperaturas... Acho que vamos entrar pra MURAL Rsss.
Parabéns pela narrativa.

Maurão disse...

Rapaz, deixem de mimimi nas fotos não vi um grão de areia.

Plech disse...

Pé, você brocou na sua resenha. Ficou massa!!!
Manda bem viu Alexandre.
😀😀😀