4° DIA EXPEDIÇÃO JALAPÃO: Abenita, Serra do Espírito Santo, Mateiros e Mumbuca

Lembro muito bem do lançamento das expedições 2015, quando fui solicitado para falar sobre o que é fazer uma aventura destas com o Mural de Aventuras. Recordei o TransAndes com toda a união do grupo, todas as dificuldades, a superação individual e não amenizei em nada o sofrimento vivido. Estava claro para todos que me ouviram que dificilmente eu enfrentaria uma nova aventura. Engano geral, inclusive meu. Assim que vi as imagens do Jalapão, a adrenalina tomou conta e como já ouvi antes de alguns amigos expedicionários, uma vez contaminado por esse vírus, a recaída é certa, fica no DNA e no espírito para a eternidade. Vida Longa ao Mural, e vamos a brocação do quarto dia de expedição. Partiu Jalapão!
Acordamos com o chamado de Elson entre a ventania que soprava desde a madrugada. Eram 6h da manhã, o vento forte e o frio tinham castigado um pouco, mas no geral foi uma boa noite de descanso, melhor até do que o esperado, já que acampamos entre as árvores e poleiros de galinhas em um quintal de areia no fundo do Bar de Benita. Aos poucos todos foram saindo de suas redes e iniciando todo o processo de desmontagem do acampamento. As roupas estendidas que tinham sido lavadas a noite, já estavam secas graças ao clima do Cerrado. Os banheiros sem reboco, com uma minúscula pia ao canto, todo molhado devido aos canos de água na parede para o banho, eram uma prova de malabarismo para se trocar sem deixar a roupa limpa molhar ou sujar, enquanto isso, Cinthia (Filha de Benita, proprietária) preparava nosso café da manhã com o que tínhamos levado e um pouco do que tinha disponível. Então nos serviu uma farofa de calabresa com ovo, miojo, pão e atum. O atum acabou atraindo os gatos que subiram a mesa da cozinha e atacaram a latinha, para sorte deles e nosso azar.
 Tudo arrumado nos alforjes, bike preparada e barriga forrada, seguimos a estrada de terra vermelha com suas piscinas de areia e a bela vista aos pés da Serra do Espirito Santo, serra esta que era nosso objetivo do dia, subir a trilha de pedra em sua encosta para apreciar o mirante com vista para Dunas e curtir o tracking de 3km que nos conduziria até lá sobre o planalto. A jornada começou tranquila, pois o sol estava baixo e a temperatura ajudava. Com poucos metros percorridos percebemos uma acompanhante inesperada que realmente gostou dos expedicionários, era uma cachorrinha preta, porte grande com olhos claros cor de mel pertencente a Benita, que desde nossa chegada na noite anterior foi muito receptiva e se manteve atenta ao grupo, parecia que só nos seguiria por um momento, porém o sol foi esquentando e ela firme e forte no seu passo.
Chegamos após 8km a entrada que leva ao topo da Serra, encontramos caminhões e caminhonetas cheias de turistas que nos cercaram com perguntas sobre nossa expedição. Graças a Deus tinham água gelada. Todos parabenizavam nossa coragem e força por encarar o bruto Jalapão, lembro bem quando um rapaz disse que nem imaginava ser possível de bike, pois já estava cansado do sacolejo dentro dos carros 4x4 com ar condicionado e do calor intenso e seco nas caminhadas. O espanto e os parabéns serviram de incentivo para mais uma façanha inédita para o Mural e para o Jalapão. Elson queria subir a trilha com a bike nas costas para pedalar no single track. Eu não tinha metade da convicção que seria possível, mas pensei comigo, se um conseguir, serei eu, ou com certeza estarei junto. Rssss. Seguimos então com as bikes, Elson, Rei, Plech e eu. Nino ficou junto aos caminhões devido aos calos nos pés que já o castigavam desde Palmas, coitado de Pé de Chinelo, KKKK. Sua luta era árdua, mas ele é um verdadeiro guerreiro e seguia firme e forte. Alexandre e Kadjon preferiram subir sem as magrelas. O Calor e a areia já mostravam a cara nos primeiros metros até a entrada da trilha, por sorte o sol ainda se escondia na serra em alguns momentos e tínhamos um pouco de sombra. As pernas e braços já traziam o cansaço dos outros dias, após rafiting e muito pedal. A trilha serpenteava a serra em um zigzag sem fim. Começamos então a jornada, bike sob o braço direito, mão esquerda no guidão, mão direita na parte debaixo do quadro e selim no ombro, iniciamos a subida carregando a bike. A trilha era toda em pedra solta e com diversos rochedos que precisávamos apoiar a bike e escalar com as mãos, pois superavam a altura da cintura, a musculatura era exigida ao máximo e a cada passo tínhamos uma vista melhor do que seria aquela aventura. Fomos informados que teríamos quatro bancos de madeira na trilha para descanso e isso foi nossa referência da distância a percorrer. Parávamos para pegar fôlego, tirávamos fotos e a subida não acabava, parecia interminável. Porém com toda a dificuldade brocamos mais uma vez e subimos bastante rápido, comparado aos que não carregavam nada. Chegando ao topo o corpo cansado e a mente em êxtase era indescritível. A emoção de ter conseguido, junto a vista magnífica do Jalapão fez valer a pena todo esforço. Seguimos a trilha menor a direita e fomos a uma extremidade com vista para estrada que seguiríamos mais tarde. Plech estava eufórico e se aventurou para tirar uma foto em uma pedra aflorada para além da Serra, mas foi logo repreendido por todos. Seguimos então para a outra trilha a esquerda que conduzia ao mirante principal com vista para as famosas Dunas. Iniciamos o então single track ainda inexplorado por bikes, alguns obstáculos de pedra no início e depois só brocação até encontrarmos Kadjon e Alexandre ainda caminhando rumo ao mirante. Passamos também por grupos de turistas que saíam do caminho abrindo passagem aos destemidos ciclistas. Em poucos minutos percorremos os 3km e já estávamos sozinhos junto a uma vista espetacular, vislumbrando a grande erosão da serra e as Dunas Vermelhas do Jalapão.
 Fotos feitas, hora de voltar, pois a descida na trilha de pedra estava a nossa espera. Novamente pedalamos os 3km a todo gás na trilha apertada, com os galhos riscando as canelas e com o sol já fervendo a cuca. Respiramos um pouco conversando com os turistas, sempre muito curiosos sobre nossas façanhas e nem pensamos muito, vamos descer que a jornada vai ser árdua. E realmente foi. Se os rochedos pareciam grandes e intransponíveis na subida, imaginem vistos de cima. As pernas já não ajudavam, as costas doíam e o ombro sofria com o peso do selim apoiando a bike. O sol castigava e a cada gole de água quente, eu balançava o camelbak para verificar o quanto ainda restava. Ficou bastante claro na descida o quanto fomos audaciosos nessa empreitada, para não dizer loucos. Por mais cuidado que eu tinha ao descer, acabava pisando em pedras soltas e perdendo o equilíbrio, com direito a catar ficha morro a baixo por alguns metros. Como o Mural é abençoado por Deus e todos os santos, nada de mal nos aconteceu e conseguimos a façanha sem baixas ou incidentes. Chegamos aos caminhões e viramos a atração, eu pouco ouvia o que se falavam, mas escutei claramente os guias dizendo que fomos os primeiros e únicos a pedalar sobre a Serra do Espirito Santo, que contariam isso a todos os aventureiros que por ali passassem, fora isso eu só queria água e nunca era o bastante, litros e litros, quanto mais bebia mais sede sentia. Comecei a ficar zonzo, boca sempre seca e com muito calor, até que Elson me ajudou e sentamos na pequena sombra de um arbusto onde aos poucos fui me hidratando e esfriando o corpo jogado entre a vegetação rasteira. Por sorte os caminhões estavam lá, pois nos deram água, maçã e bolo. A ajuda deles foi abençoada! E que maçã! rsss perfeita! A melhor que já comi. Gelada e doce aos 47° do Jalapão, isso não tem preço.
Reagrupados, nos despedimos dos turistas que fizeram questão de dar uma volta em algumas de nossas bikes e seguimos em direção a cidade de Mateiros onde faríamos uma parada para almoçar. Novamente acompanhados pela cachorrinha de Benita que também escalou a Serra seguimos pela estrada ao calor do sol de meio dia. A estrada continuava difícil, a temperatura só aumentava, já havia consumido todos os 6 litros de água que carregava desde a manhã, mais uns 3 litros conseguidos junto aos turistas e continuava desidratando e precisando reabastecer, incrível como perdíamos líquido rápido. Mas como o Jalapão tem seus segredos escondidos, surgiu uma pequena ponte de concreto e logo abaixo mais um riacho digno de cartão postal. Pequeno e escondido com água cristalina e arborização impecável, era o necessário para resfriar a alma, pegar água e descansar alguns minutos. Nino aproveitou para cuidar de seus calos e Kadjon para fazer mais uns de seus filmes com o celular embaixo d`água. Nesse momento percebemos que o Jalapão nos separou de nossa companheira do dia, a cachorrinha aventureira ficou pelo caminho. De acordo com um caminhoneiro ela ficou repousando em uma sombra após ele fornecer água.
Como tudo no Jalapão é inédito, teve gente que ia deixar o camelbak para o calango, logo quem, quem? Elsão? Ele mesmo. Nesses momentos percebemos o quanto somos dependentes um do outro e muito mais quando estamos próximos ao limite do corpo. Cansados e já com fome até os mais experientes ficam desatentos.
Mateiros já mostrava sinais de estar perto, pois surgiam algumas construções ao longe, dentre a estrada de terra e o céu azul sem nuvens. Com 38km percorridos chegamos a primeira cidade após nossa partida a quatro dias atrás. Enfim uma civilização, Mateiros é o município onde está integralmente o Parque do Jalapão, possui aproximadamente 2.000 habitantes e faz divisa com os estados do Piauí, Maranhão e Bahia. A cidade é bem pequena, com uma rua principal asfaltada. Santo tapete preto! Foram tantos dias pedalando nas costelas de vaca que o asfalto virou festa na hora que as bikes deslizaram suave, kkkkk, a retaguarda agradece. Procurávamos informação sobre algum restaurante no Posto de gasolina, porém o proprietário não queria conversa, rodava para um lado e para o outro com o celular na mão, parecia brincadeira, mais o bendito queria uma foto nossa junto ao posto dele e não sossegava, nem informava nada enquanto a gente não tirasse. KKKKKKK. Será que estávamos longe de casa? Pronto, batida a chapa, a criatura resolveu indicar o local. Restaurante da Dona Rosa no final da rua, local em construção, está ampliando, em breve futuras instalações segundo ela, ao fundo, um quiosque e um varandão com cozinha, tudo bem organizado e limpo. Dona Rosa é uma figura, fala alto, agitada, mas muito atenciosa, daquelas mulheres simples e arretadas que vivem pro trabalho. Muito preocupada em nos atender bem, disse que não estava preparada e que só tinha uma comidinha simples já pronta, pois não tinha feito mercado e a dispensa estava vazia. Ô Dona Rosa, a senhora foi muito humilde, a comidinha, carne moída com arroz e feijão eram dignos de Chef, parabéns novamente!
Comemos muito bem, e logo a moleza chegou. Fomos descansar no quiosque de palha e alguns até cochilaram, “êita que vida boa”! Será? Moleza na expedição? Não demorou nada, Elsão comanda, Partiu Mural!
Hora de levantar e pedalar, que o destino nós sabemos qual é, mas o percurso e a hora da chegada é sempre uma incógnita. Logo na saída, uma criança com geladinho. Perguntaram logo! Onde você comprou isso meu filho? Na guerra ninguém deixa passar nada despercebido. Pausa rápida para uma rodada de geladinho de manga. Soube que era de manga por que ouvi falarem. Rsss. Para mim era amarelo e só, mas uma delícia, tava gelado. Alexandre queria levar uns 3, mas avisamos que ia derreter e ele desistiu. É o desespero batendo na porta. O sistema lá é Bruto!
Uma descida longa e estávamos fora da cidade, a poeira era muita, os carros passavam e cobriam tudo com o pó vermelho fino, mas o pedal rendia bem, tínhamos mais 30km pela frente até o povoado quilombola de Mumbuca, uma comunidade formada por 165 moradores, em sua maioria descendentes de escravos que saíram da Bahia em 1909 e se uniram com os índios Xerente da região. São quase autossuficientes, plantam e criam animais para o consumo próprio e a principal renda é obtida com o artesanato, único no mundo feito a partir do Capim Dourado, encontrado apenas no Jalapão.
Ainda escurecia, quando chegamos ao desvio na estrada com a placa indicando o povoado a 10km. Só isso? Estávamos pertinho, chegaríamos bem cedo e o descanso e a comida estavam garantidos!! Todos aceleraram e a motivação estava estampada no rosto de todos. Mas logo logo o ritmo foi caindo e o areal branquinho tomando conta da estrada. Nada com esse Mural é fácil.
A noite chegou e ainda estávamos girando na areia, um caminho escuro e estreito, somente as estrelas ao céu, ao ponto de Kadjon apontar pra uma mais baixa e falar com Alexandre, “Ta vendo aquela luz ali no céu, é uma casinha de Mumbuca pra onde agente vai, fica no alto de uma serra” KKKKKKK. Ô boca ruim, não é que a areia foi terminando e começando uma subida, por sorte não era grande. Ao apontarmos em cima, surgiram as casinhas enfileiradas, a esquerda e a direita em duas ruas largas de terra. A luz bem fraca e um completo silêncio que acabou quando entramos no povoado. Fomos recepcionados por gritos, assobios e palmas. Um barulhão mesmo. A mente reagiu na hora, o cansaço sumiu, as pernas ficaram fortes, o coração disparou. O povo de Mumbuca nos recepcionou com toda a sua alegria e hospitalidade. Nós respondemos a altura e gritamos de volta. Teve até Bora Mural! Uma recepção calorosa e totalmente inesperada, até hoje lembro e vibro com a emoção, como tão pouca gente fez tanto barulho e nos passou tanta energia.
 Logo ao final da rua encontramos Emerson da Pousada Tonha que estava de moto e nos indicou o caminho.  A pousada era bem simples, mas muito bem cuidada, uma ala de quartos e outra com uma grande mesa de jantar com uma cozinha ao fundo. Nosso jantar foi típico de Mumbuca, um feijão local com cheiro verde, carne de panela acebolada, macarrão, arroz, feijão e uma colorida salada crua. Tudo muito saboroso e o suficiente para repor nossa energia perdida ao longo do dia. Pela primeira vez na expedição uma boa cama nos esperava para o merecido descanso. E assim os expedicionários se despediram do quarto dia sem muita conversa, ansiosos pela longa noite de sono. 
O Jalapão é bruto, mas em um lugar de extremos, entre o deserto árido, os rios e cachoeiras deslumbrantes, existe magia em cada canto que se olhe, escute e em cada morador com toda a sua simpatia e simplicidade.
 Levo dessa expedição o prazer de viver rodeado de verdadeiros amigos, de curtir cada momento intensamente e de sentir que precisamos de tão pouco para ser felizes. Esta é a riqueza a ser preservada e cuja vivência glorificou nossa aventura.
Parabéns Expedicionários do MURAL!! Dessa vez nós brocamos e fizemos história no Jalapão. A Serra do Espirito Santo é do MURAL!! Odilardo Filho (ODI).
CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR







































































































2 comentários:

Plech disse...

Odi sua resenha está parecendo uma poesia! Está fantástica, adorei. Me fez voltar no tempo e sentir toda a emoção novamente. Parabéns meu amigo. As fotos também estão ótimas, o visual lá de cima da Serra do Espírito Santo é simplesmente extraordinário. Lembro que ficamos boquiabertos ao ver a vista lá do alto, simplesmente encantadora. Quanto ao grupo você já disse tudo, verdadeiros amigos!!!
Bora Mural

Kadjon disse...

Odi...Parabéns. Agora estou FDIDO