3º Dia - Ciclo Aventura Chapada Diamantina (Vale do Pati ao Capão) (Texto: Neylor Bahia - Mineiro)

Amanheceu no Vale do Pati, a bruma envolvia as montanhas e um clima ameno imperava. Chegava a hora de sair da casa de Dona Raquel e rumar, morro acima, para o mirante do vale e, de lá, para o Vale do Capão. No café, um pão caseiro feito na hora nos presenteava com energia ao montes. Não era mais tempo para experimentar a cachaça de banana ou de ouvir o seu João tocar sua sanfona, dentre as mágicas que aquele lugar nos reserva. Daquele pouso encantado sairíamos para uma prática fundeada na Grécia antiga, talvez cedo demais. O morro do Castelo e sua gruta ficariam para outra ocasião.
Passamos primeiro no amigo de Leonov, o senhor Wilson, um dos anfitriões daquele espaço espremido no vale do Rio Andaraí. Conta-se que ali os primeiros habitantes chegaram no final do século XIX, açoitados por uma grave seca. A umidade permitiu que mais de duas mil pessoas cuidassem de plantações de café, banana e de extração de palmito, além da coleta de diamantes em pequena escala. Ali córregos e nascentes formam a base do Rio Paraguaçu, que abastece a Região Metropolitana de Salvador, distante quase 500 quilômetros, Por isso é chamada de "Caixa D´água da Bahia". Em fins da década de 50 o governo federal comprou a produção nacional de café e a queimou, a fim de aumentar o preço no mercado internacional. Isso provocou o êxodo dos sertanejos, hoje resumidos a treze famílias, de acordo com o relato do Parque Nacional da Chapada Diamantina. O povo patizeiro vive agora do ecoturismo. Em mais de 60 anos a mata recuperou, em parte, seu espaço e nos agracia com raros cenários.
 Continuamos a rodar e logo depois da primeira parada sequestramos um guia que seguia descalço e conduzia uma família de turistas. Ele nos deu a dica da trilha do Cruzeiro, praticamente invisível do Mirante do Pati, e também para o caminho da Igrejinha do Senhor do Bomfim. Disse ainda: "esse povo ciclista ama o sofrimento". Então o largamos e fomos para a Cruz. Difícil escalada, amenizada por uma paisagem de encantamento. Os mais de dois mil quilômetros entre Ouro Branco e Sento Sé possivelmente ali possuem o maior esplendor da Cordilheira do Espinhaço. Quem sabe, nas estradinhas próximas à Cabeça de Boi, distrito de Itambé do Mato Dentro, veria algo tão marcante. Não havia cachoeiras recentes formadas pela chuva, sequer passamos pela do Funil ou por outra de maior dimensão, mas ali encontrava a perplexidade. Para mim, seria impossível entender e tentar descrever tamanha beleza. Recorro à "Hotel Toffolo", do livro Claro Enigma, de Drummond:

E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.
Como se a cidade não nos servisse o seu pão
de nuvens.
Não, hoteleiro, nosso repasto é interior
e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia.

No Camping da Igrejinha encontramo-nos com um grupo de trilheiras de Salvador e fizemos uma pausa para uma leve refeição de carne de sol e suco de abacaxi. Não havíamos percorrido 3,5km em meia hora e a subida da "Rampa" que nos separava do Mirante do Pati nos aguardava. Levamos cerca de uma hora e meia com as bicicletas nas costas para percorrermos os 140 metros de morro acumulado até a "BR" do alto do Vale, conforme alguns guias nos falaram anteriormente. Perto da chegada ao Mirante, fui ultrapassado por dois tropeiros e três burrinhos com as bruacas vazias, que seguiam para buscar víveres a duas, três horas dali, talvez no Guiné. Mas também descansavam por lá dois gêmeos alemães, dentre vários viajantes da Deutschland pelos quais passamos em apenas três dias de Chapada. Povo sabido esse que não se abala por um oceano, aprende rudimentos de português e se afunda pelo Brasil profundo para ver o incompreensível.

No mirante do Pati nos frustramos com a inexistência do "moço do suco natural", produzimos mais centenas de imagens e avançamos por um terreno escuro, quebradiço e de vegetação rasteira até o ponto mais alto da viagem, a 1422 metros de altitude. Dali literalmente nos despencamos para o Quebra Bunda, trilha de pedras disposta a nos arrebentar nos escorregões.
Convoco aqui meu amigo Jim, o que abriu as portas da percepção:

Not to touch the earth
Not to see the sun
Nothing left to do, but
Run, run, run
Let's run
Let's run

Surpreendentemente, como se a jornada não fosse toda ela feita de deslumbramentos, chegamos quase inteiros ao final desse trecho. Havia ainda um trecho longo até o início da "Bomba", outro caminho de pedras que desemboca nas proximidades da Vila do Capão, como é conhecido distrito de Caeté Açu, na cidade de Palmeiras. No início do longo declive o proprietário disse a senha: "Larga!", para logo depois se espatifar num toco traiçoeiro e ter seu suporte de computador destruído. Felizmente, tirando a argila branca que o cobria, ele havia se safado. Muitos trechos de descida em rocha depois, era a vez de eu mesmo me tornar vizinho do dono e me integrar à natureza, me abraçando às samambaias que cobriam o lado esquerdo do percurso. Assim me tornei também possuidor de uma escritura na Chapada. Esperamos o grupo se juntar próximos à placa do Ibama. (Nota triste: ali e em poucos momentos em que cruzávamos com os guarda parques sentíamos estar num Parque Nacional, tamanha a ausência de sinalização e de qualquer outro cuidado com os caminhos.).Mara e Carla traziam um tênis perdido por Leonov. O dia havia sido extenuante. Mas era a hora da travessia de três córregos, um mais belo que o outro, para logo depois concluirmos o trecho mais bonito dessa parte num bar local, com creme de cupuaçu e magníficos pastéis de palma de jaca.

Decidi ir à Vila do Capão jantar antes de seguir para a pousada, já à noite. Abandonei o grupo e me defrontei com um lugarejo tomado por restaurantes esotéricos, centros de massagens holísticas e lojinhas de bugigangas eh aê. Eu me alegraria com uma massagem, mas a fome falou mais alto. Carla teria mais sorte. Fui então à comida caseira de dona Idalice, onde está escrita a seguinte frase sobre a porta interna: "Adentrar Deus Abençoa, ao sair Deus te acompanha". Guardei isso e voltei, lotado de costelinha e de feijão tropeiro baiano, ali feito de feijão fradinho, para a pousada. No caminho, passa por mim a dona da pousada numa picape, junto com quatro integrantes da viagem. Não havia água lá, então levou o povo para se banhar num camping ainda mais distante, de propriedade da irmã. O dia parecia não acabar. Mas meu encantamento não havia esmorecido. Como no mito do rei grego que havia sido condenado por suas traquinagens a levar uma pedra nos ombros morro acima, para logo vê-la desbarrancar montanha abaixo, preciso voltar ao Pati, por várias vezes, mas voluntariamente e devagarinho, para me aperceber de minha pequenez e do tamanho do que é belo. Só os tropeiros são felizes. Neylor Bahia - Mineiro.
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