7º Dia - Expedição Titicaca (Bolívia - Peru): Puno, Los Uros, Amantaní (Texto: Elson Siquara)

Quando chegamos a Puno, não sabíamos o que realmente iríamos fazer no dia seguinte. Inicialmente pensávamos apenas em encontrar um local limpo e confortável para dormir, afinal, já havíamos sofrido bastante nos dias anteriores em instalações precárias. A agonia era constante, em todas 24 horas do dia, onde na melhor das circunstâncias ficávamos sempre com dificuldade de respirar a quase 4.000 metros de altitude, expedição realmente não é nada fácil. Para nossa sorte, finalmente encontramos um bom hotel para pernoitar, Puno é uma cidade mais desenvolvida, melhor que todas as outras que já havíamos passado na expedição, mas a relativa moleza não iria durar por muito tempo...
Amanheceu e continuávamos ingênuos sobre a real aventura que nos aguardava. Havíamos contratado um pacote no hotel com direito a translado, passeio de barco, visita às ilhas flutuantes artificiais, visita e pernoite em uma ilha no Lago Titicaca com jantar e café da manhã, visita a uma segunda ilha e retorno o dia seguinte de barco de volta a Puno. Lembro que achei o valor do pacote relativamente baixo, mas pensei que qualquer coisa seria melhor do que já havíamos passado então arrumamos as tralhas, guardamos as bikes no hotel e entramos no ônibus que logo cedo já nos aguardava na praça que ficava perto.
Estava ansioso para conhecer ainda mais o grande Titicaca, havia estudado sobre muitas de suas atrações, como as ilhas flutuantes de Los Uros e as “Mercedes”. A existência dos Uros já se verifica desde a era pré-colombiana, quando um povo homónimo desenvolveu esta forma de habitação tendo em vista maior segurança. Os Uros são feitos à base de totoras, uma espécie de planta aquática, e é necessário constante trabalho de manutenção para assegurar a flutuabilidade de tais ilhotas onde os residentes pescam, caçam pássaros e nos últimos anos exploram o turismo com a venda de artesanato. Elas têm cerca de 2000 habitantes espalhados em 87 ilhas. O idioma que eles falam é o Aymara (semelhante ao Quechua, mas da era pré-inca). Algumas palavras: kamisaraki (é uma saudação, tipo “como vai você?”) e waliki (resposta para pergunta a anterior, como “bem”). As “Mercedes” são barcos feitos também de totora e possuem um formato bastante peculiar.
Chegamos ao cais e fomos direcionados para um dos muitos barcos que fazem o passeio no lago. Começamos e navegar e não demorou muito para avistarmos as ilhas flutuantes no horizonte. Ao chegar mais perto foi pude perceber a grande dimensão, uma verdadeira cidade flutuante. Los Uros é um daqueles lugares que são mostrados em documentários do Discovery Channel, realmente muito impressionante. São várias pequenas ilhas, onde as famílias recebem os visitantes e demonstram através de encenações como é a vida no local. Ao desembarcarmos fomos recebidos com cantos, havia só mulheres, todas com vestidos coloridos, depois ficamos sabendo que os homens da família estavam fora em busca de mais totoras para manutenção do lugar.
Fomos conduzidos para sentar e começamos a assistir uma apresentação sobre a cultura Aymara, enquanto uma das mais idosas falava, percebi que uma jovem começava a descascar os talos de ramos de totoras que logo depois nos foi oferecida para comer, parecia palmito, mas o gosto não muito agradável tinha uma textura esponjosa, comer aquilo só se for para não morrer de fome, mas valeu a experiência. Terminada a apresentação, fomos convidados a entrar nas cabanas também feitas de totoras e vestimos roupas típicas o que foi muito divertido, fizemos várias fotos. Depois começou a demonstração e venda de artesanato, muitos não conseguiram resistir e compraram várias peças.
Pagando alguns soles fizemos também um passeio nas “Mercedes”, o barco levava confortavelmente no mínimo 10 pessoas e seu movimento lento movido a remo, pudermos relaxar um pouco e apreciar a paisagem. Paramos em outra ilha flutuante para um rápido lanche e subimos no barco a motor para continuação de nossa aventura.
Pude perceber o quanto enorme é o Titicaca, foram mais de 3 longas horas de barco até chegarmos a Ilha Amantaní. Perto do desembarque o guia começa a falar um pouco da cultura local e o que iríamos vivenciar, foi aí que a ficha começou a cair e um clima de preocupação pegou todos expedicionários de surpresa. O guia informou que iríamos ficar hospedados em uma casa de família do povo Aymara na comunidade Occopampa e que iríamos experimentar os costumes locais, sendo que o mais nos chamou atenção foi o tipo de comida, vegetariana! Estávamos famintos, sonhávamos em comer bem, daí a nossa agonia...
Ao chegar às instalações percebi que já existia uma estrutura voltada a receber viajantes com vários quartos, fomos apresentados a dona da casa, “Mama Célia”, pessoa reservada que pouco falava, mas sorridente, ficamos nos quartos enquanto aguardávamos com certa apreensão o almoço que seria servido em uma mesa ao lado da cozinha. Inicialmente foi uma sopa de batatas desfiadas com cebola e como prato principal um mix de salada (pepino e tomate) com dois tipos de batatas cozidas e um pedaço de queijo frito, a fome foi o tempero acabei comendo tudo e mais um pouco do que foi deixado nos pratos dos companheiros, rsrs. Antes de terminarmos o almoço, o guia falou que poderíamos reservar para o jantar “Cui”, um pequeno roedor que vive nas montanhas, apesar de desconhecermos o animal, aceitamos a oferta de pagamos por dois Cui´s na tentativa de comermos um pouco mais de carne.
O dia ainda reservava muitas emoções, depois de meia hora de “sesta” o guia nos intima a subir a montanha da ilha, onde lá de cima poderíamos ver o pôr-do-sol e visitar os templos sagrados pré-incas de Pachamama e Pachatata. Devido a altitude, aproximadamente 4.000 metros, passamos a subir sem pressa por uma trilha, era só acelerarmos o passo que a falta de oxigênio cobrava seu preço, além disso, o frio aumentava a cada metro, nada é fácil em uma expedição, o cansaço é um companheiro constante. Após quase uma hora de caminhada, chegamos a uma bifurcação, nesse momento o guia já havia nos deixado, para esquerda lá no alto por uma trilha mais difícil, ficava o templo de Pachamama e para direita o um pouco mais fácil o de Pachatata. Claro que a busca constante por desafios nos empurrou para a subida rumo ao templo Pachamama. Apesar da extrema dificuldade, o visual era recompensador, o dia estava lindo e a vista das montanhas beirando o lago era uma pintura, daquelas de imaginamos raramente ver na vida, emocionante! Lá estava o templo, muros de pedras que desafiam a imaginação sobre o que faz o ser humano diante de tanta dificuldade ser capaz de construir aquilo.
Enquanto admirávamos as paisagens de alto da montanha de Pachamama, pudemos avistar de longe pessoas em direção ao templo de Pachatata, no alto da outra montanha, ainda restava os últimos raios de sol quando decidimos fazer o improvável, partir para descer e subir a outra montanha e curtir o pôr-do-sol de lá. Lembro que inicialmente Marão (GDT) resistiu a ideia, mas não teve jeito, brocamos a ladeira todos juntos e em um ritmo ainda mais intenso. O templo Pachatata estava movimentado, muitas pessoas aglomeradas para ver o espetáculo da natureza. Conseguimos até comprar umas cervejas à temperatura natural e tomar café para minimizarmos o frio. Valeu o esforço, o pôr-do-sol no Titicaca foi muito bonito. Como nem todos estavam com lanterna, tivemos de retornar rapidamente.
Ao chegar à casa de Mama Célia o frio já era intenso e fomos surpreendidos com mais uma situação difícil. Não havia água quente para tomarmos banho, cheguei até a ir ao banheiro para tentar de forma heroica enfrentar a água gelada, mas quase congelo na tentativa. Lavar as mãos já era uma tarefa dolorosa, rsrsrs. Logo foi servido o jantar e a expectativa do “Cui” era grande, mas assim também foi a decepção, o bichinho era bem pequeno, quase nem deu nem para experimentar pois não tinha carne, o jeito foi complementar com mais comida vegetariana, rsrsrs.
Ainda restava mais um evento na programação, um luau típico Aymara com música ao vivo, vestimos umas roupas parecidas com ponchos, seguimos com nossas cervejas e Mama Célia na escuridão da noite fria para uma outra casa da comunidade onde ocorreria o evento. Chegando lá estava tudo quieto e percebemos que não haveria o luau, mas sem desanimo voltamos para nossa casa e Mama Célia acendeu a fogueira com pedaços de madeira e galhos secos que havia levado. Bebendo cervas resfriadas ao vento, aquecidos pelo calor da fogueira, passamos a lembrar das muitas aventuras já vividas na Expedição Titicaca e entramos em um estado de espírito tão alto quanto às montanhas andinas, rsrsrs, uma noite para ficar na memória, foi um daqueles momentos mágicos de nossa viagem.
Já era tarde quando voltei para o quarto, a agonia estava em dormir sem tomar banho e agora cheirando a fumaça, KKKK, peguei uma cueca limpa e vesti para minimizar a situação. Acredito que todos os outros expedicionários passaram pela mesma situação...
Esse foi mais um dia da nossa grande aventura em terras bolivianas e peruanas, as expedições do Mural de Aventuras são tão intensas e emocionantes que esse breve relato é apenas uma tentativa de expressar o que vivenciamos. Obrigado a todos que me proporcionaram mais essa realização. Bora Mural!!! Elson Siquara.
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Um comentário:

Plech disse...

Essas experiências são realmente fantásticas. A possibilidade de conhecermos lugares com uma cultura totalmente diferente da nossa, e dessa forma, vivenciando o dia a dia, junto com a comunidade local, fazem das expedições do Mural de Aventuras serem inesquecíveis.
Valeu galera, lindas fotos, massa a resenha Elsão e que venha a Chapada das Mesas. Expectativa em alta.
BMMP