Após uma noite de muito frio às margens do Rio Preto, foi difícil criar coragem para sair das barracas, pois a manhã estava gelada e as barracas muito úmidas por fora. Levantamos nosso acampamento rapidamente, já com desenvoltura de profissionais de camping. Com todas as bikes já prontas, tudo certo, uma última verificada na prainha às margens do rio para ver se não estávamos esquecendo nada, saímos à procura de algum lugar para nosso café da manhã, mas o vilarejo praticamente não tinha opção.Voltamos à Mercearia Souza, onde tínhamos almoçado no dia anterior e a dona mais uma vez foi muito atenciosa com todos. Como sempre o pessoal muito hospitaleiro.
Contamos com um ilustre visitante no nosso café da manhã: uma arara canindé surgiu de longe para juntar-se ao grupo e lanchar conosco. Foi algo realmente inédito, pois a ave que tinha total liberdade optou por ficar ali, comendo biscoitos na nossa mão. A beleza e força do animal, tranquilamente passeando por entre o grupo, nos fez parar para refletir sobre o respeito que devemos ter pela natureza. Esta expedição nos fez rever nossos conceitos de valores morais, uma verdadeira escola a céu aberto.
Começamos o dia muito bem. Na nossa partida, a ave ainda nos acompanhou por mais de 300 metros e depois seguiu seu próprio destino, se despedindo do grupo em grande estilo, com um vôo rasante bem próximo de todos nós.
Pedalamos durante a manhã até o povoado de Capela. Fizemos uma breve parada para um descanso e após alguns minutos seguimos viagem.
Toda a região era cercada por imensos paredões, que de longe já nos pareciam assustadores e tudo aquilo era apenas uma amostra do que teríamos q
Com o sol castigando durante todo o trajeto, fizemos uma parada em um pequeno ribeirão. Nosso amigo JP precisou dar uma revisada nas bagagens que insistiam em querer pular da bike. Com a ajuda do Piau ficou tudo certo. Descansamos um pouco, lanchamos e tomamos um rápido banho para recuperar parte das energias.
Continuamos nossa jornada e depois de longas 3 horas de pedal pelas estradas de cascalho e areia sob um sol escaldante, nos aproximamos da Serra Vão. A chegada ao pé do paredão parecia não ter fim.
O solo de areia fina misturada a pedregulhos travava as bikes e era preciso também pedalar para descer as ladeiras. Denominamos as descidas de "des-subidas ", pois do ponto mais alto para o mais baixo também era obrigatório pedalar, caso contrário a bike simplesmente parava.
Devido à escassez de água e alimentos, parei um pouco para buscar alguma energia (se é que ainda tinha) para vencer o último e mais difícil obstáculo.
O companheirismo e união do grupo foram fundamentais neste momento, pois minhas reservas estavam acabando. Até a água já estava no final.
Para sorte de todos, conseguimos algum alimento numa parada antes da grande subida. Mais uma vez, a simplicidade e ajuda da comunidade local surpreendeu. As pessoas dividiam conosco o próprio alimento e água. Comemos uma rodada de fígado com ovo frito e uma farinha para arrematar. Podem acreditar, foi um excelente prato. Rsrsrs
O pessoal da barraquinha nos falou que ao pé da serra encontraríamos um pequeno córrego, que indicaria o real início do "sofrimento".
Batemos em retirada para enfrentar a subida da serra e após quase meia hora nada de aparecer o riachinho. Eu já estava intrigado, pois havia subido bastante e até o momento ainda não era de fato o
pé da serra.Enfim, depois de chegar à pequena ponte, estávamos realmente no marco zero para iniciarmos a escalada (melhor dizer assim, pois pegamos inclinações seguidas de mais de 60º durante praticamente todo o trajeto). As curvas serpenteavam os morros e foi assim até chegarmos ao ponto mais alto.
As pessoas da região tinham nos alertado que era impossível subir a serra pedalando, inclusive alguns tipos de carros subiam com muita dificuldade. Aquilo aumentou ainda mais a ansiedade do grupo em vencer o paredão. Todos conseguiram e isto foi a vitória do dia. Tínhamos pedalado desde 6.00h da manhã, estávamos sem almoço e já muito cansados e o paredão seria nosso último obstáculo do dia. Tirando o susto da quebra do bagageiro da bike de Popó, tudo correu bem.
Depois disto, a caminho de Cavalcante, fizemos descidas em alta velocidade por vários quilômetros e finalmente ao pôr do sol e com a temperatura caindo rapidamente, chegamos no nosso destino.
Em uma rápida varredura pela cidadezinha, já ao cair da noite, procuramos por uma pousada e depois de dois dias seguidos de acampamento, uma cama limpa e um banho quente era tudo que a galera mais queria.
Mais um dia vencido, de muito esforço e desgaste. Este foi considerado um dos trechos mais difíceis da Expedição.
A noite, depois de um bem servido jantar no Bar do Fernandes, na pracinha central da cidade, nosso merecido descanso para o dia seguinte. Welseman.
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