Apesar da dificuldade de
expressar todo sentimento que envolve uma Expedição, gosto muito de falar sobre
isso. Ao escrever uma resenha como esta, penso que daqui a alguns anos poderei
ler e novamente “viajar” nas aventuras que um dia realizei.
Antes de descrever como foi o
nosso segundo dia em terras Austríacas, confesso que pensava não poder existir
aventura maior do que a Expedição do Deserto do Atacama, que realizamos em
2012. Esse foi um dos principais motivos da dificuldade de encontrar um roteiro
tão bom quanto para a expedição de 2013.
Outro aspecto que me deixou
confuso foi o fato de ir para um lugar tão longe do Brasil, nunca imaginei
fazer isso. Acho que viver o Mural de Aventuras nos faz derrubar muitas
barreiras. O que estaria fazendo se não fosse isso? Uma coisa é certa, me
realizo a cada aventura, sou cada vez mais feliz em todos os sentidos.
Transalpes!!! Porque fazer o
Transalpes? Inicialmente foi o fato de passar por quatro países que me chamou
mais atenção, diferentes povos, lugares, línguas, relevos, arquiteturas,
histórias, culturas, tudo isso misturado com muitos desafios, recheados do
melhor do mountain bike! Tem também os Alpes, os famosos Alpes suíços! Cadeia
de montanhas que se estende para ainda outros países como Alemanha, Áustria e
Itália.
Mas vamos para a nossa aventura
do segundo dia.
Dormimos todos em um mesmo
quarto, sorte que existia uma boa varanda para deixarmos as roupas secando e
outras tralhas que levamos. Na noite anterior lavei o uniforme do Mural e mesmo
ainda úmido vesti no dia seguinte, isso é um costume nas expedições. Acho que
devido ao cansaço, teve expedicionário que não lavou a roupa, e repetiu a
mesma, imagina a que situação chegamos a ficar...
Antes de iniciarmos o pedal,
tomamos um reforçado café da manhã e fizemos a primeira foto em frente ao
hotel. Imst é uma pequena cidade extremamente agradável, uma pena não poder
ficar mais tempo.
Imaginava que dali para frente
teríamos um trajeto um pouco menos desgastante do que o dia anterior, mas não
durou muito. Estávamos seguindo a rota do gps, quando observei um ciclista
iniciando uma subida do lado esquerdo da estrada, me chamou a atenção uma placa
que mesmo estando em austríaco e sem entender quase nada, existia uma foto de
uma linda Igreja no alto de uma montanha, achei que poderia ser interessante e
iniciei também a subida seguido por Rei, Maurão e Serjão.
Essa subida foi dura, até porque
passei a acompanhar o ciclista que estava sem o peso dos alforjes. Subimos
muito, mas o esforço foi recompensador, chegamos em um lugar muito lindo com
uma Igreja no meio de um verde gramado e mais no alto um castelo no topo de uma
montanha ainda mais alta, era tão bonito que parecia não ser realidade. O local
tinha o nome de "Gasthof Kronburg" e também possuía um restaurante
onde aproveitamos para experimentarmos a deliciosa cerveja local. Era só o
início do nosso trajeto do dia, mas já havíamos vivenciado várias emoções.
Fora da rota do gps, seguimos
viagem rumo a Ischgl e durante o caminho, percebi o alto grau de religiosidade
da populacão local, a cada poucos quilômetros encontrávamos com imagens escupidas
em madeira de Jesus Cristo. Aproveitamos para pedir proteção a nossa aventura.
Após um downhill pelas estradas
que serpenteavam as montanhas, encontramos novamente a rota do gps e chegamos a
cidade de Landeck. Era domingo e as ruas estavam desertas, passamos pela cidade
e quando começamos a subir novamente, decidimos voltar e procurar um lugar para
almoçar. Foi uma acertada decisão! O que nos esperava pela frente, seria algo
até então ainda mais difícil. Conseguimos encontrar um restaurante aberto de um
hotel e comemos lasanha a bolonhesa. Sem descansar, subimos nas bikes e
partimos ainda de barrigas cheias.
A ladeira parecia não ter fim,
inacreditável ter estradas em lugares tão altos nas montanhas. Fato
interessante foi quando, após subirmos uma parte ainda mais inclinada, paramos
para respirar ao lado de uma pequena igreja e logo em seguida a janela se
abriu. Era uma senhora que ao perceber o nosso cansaço, ofereceu água e
perguntou se precisávamos de algo. O que queríamos mesmo é chegarmos logo ao
topo do passo. Após mais de duas horas subindo, entramos em um single track no
meio de uma floresta de pinheiros, era um lugar único! Muito bonito, mas ao
mesmo tempo perigoso. O caminho estreito com precipício ao lado, tornava a
aventura ainda mais arriscada. Como tenho medo de altura, redobrei a minha
atenção e em alguns trechos empurrei a bike.
Bem no alto, encontramos uma
cachoeira com uma pequena ponte de madeira, aproveitamos para beber água, era
muito gelada e gostosa (água do degelo), bebíamos água sempre das cachoeiras ou
bicas criadas nas vilas e cidades por onde passávamos. Isso foi muito bom, pois
durante a expedição não tivemos custo com hidratação.
Quando começamos a descer, fomos
surpreendidos por um ciclista em sua bike full. Ele mostrou o caminho correto e
começamos a tentar acompanhá-lo, mas ele desceu muito rápido o grande downhill
e por causa dos alforjes, tivemos que conter a nossa onda e em muitos momentos
segurar a bike para não cair no barranco. Esse lugar foi fascinante, um
verdadeiro parque de diversões para quem gosta do mountain bike, confesso que
fiquei agoniado por não poder “brocar” devido ao peso na minha bike.
O nosso objetivo do dia era chegarmos
próximo a cidade de Samnaun na Suíça para montarmos acampamento, mas já passava
das 20h. Sabia que para chegarmos a Samnaun teríamos de subir mais de 1.000
metros de altimetria. Então Ischgl (Áustria) passou a ser o nosso destino
final. Senti uma frustação de não cumprir o roteiro e poder acampar naquele
dia, mas as condições adversas que estávamos enfrentando levavam e essa
situação.
Ischgl parecia não chegar nunca,
estávamos muito cansados. A trilha acompanhava do alto a estrada principal de asfalto,
era muito linda e passava por dentro de vilarejos. Era quase 21h e ainda
restava quase uma hora de sol quando tivemos que fazer mais uma parada para
descansar. A fome tinha apertado, lembro que passamos a comer tudo o que
tínhamos em nossas bagagens, foi a nossa salvação.
A primeira impressão de Ischgl
foi meio desanimadora, a cidade estava totalmente deserta. Apesar da grande
quantidade de pousadas e hotéis, todos estavam fechados, não havia ninguém nas
recepções. Era muito estranho, mas o motivo para essa situação foi que apesar
de restar um pouco da luz solar, já era quase 22h (os dias eram bastante
longos). Resolvemos distribuir os rádios e nos separar para encontrar opções de
hospedagem, a nossa relativa tranquilidade era porque tínhamos levado barracas,
de uma forma ou de outra teríamos onde dormir...
Eu e Serjão fomos para o lado
oposto da cidade, enquanto Rei e Maurão buscavam informações em uma central de
atendimento automatizada voltada a turistas. Descobrimos uma rua com alguns
restaurantes abertos e em um deles, que também era hotel, conseguimos
hospedagem. Tratamos logo de pedir quatro big chopp’s e pizzas para comemorar a
nossa chegada. Esse foi apenas o segundo dia, ainda faltava mais seis de muitas
descobertas. Aguardem!!!
Irmãos expedicionários: Maurão,
Rei e Serjão, sem vocês essa aventura não seria tão maravilhosa, obrigado a
todos pela companhia.
Ainda hoje sonho com os Alpes e
penso que foi um sonho, daí acordo e me lembro de tudo o que passamos, uma
experiência incrível que nunca tinha imaginado fazer, mas que se tornou
realidade graças ao Mural de Aventuras e aos apoios que recebemos. Um grande abraço, Elson.
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