Quando chegamos a Puno, não
sabíamos o que realmente iríamos fazer no dia seguinte. Inicialmente pensávamos
apenas em encontrar um local limpo e confortável para dormir, afinal, já
havíamos sofrido bastante nos dias anteriores em instalações precárias. A agonia
era constante, em todas 24 horas do dia, onde na melhor das circunstâncias
ficávamos sempre com dificuldade de respirar a quase 4.000 metros de altitude,
expedição realmente não é nada fácil. Para nossa sorte, finalmente encontramos
um bom hotel para pernoitar, Puno é uma cidade mais desenvolvida, melhor que
todas as outras que já havíamos passado na expedição, mas a relativa moleza não
iria durar por muito tempo...
Amanheceu e continuávamos
ingênuos sobre a real aventura que nos aguardava. Havíamos contratado um pacote
no hotel com direito a translado, passeio de barco, visita às ilhas flutuantes
artificiais, visita e pernoite em uma ilha no Lago Titicaca com jantar e café
da manhã, visita a uma segunda ilha e retorno o dia seguinte de barco de volta
a Puno. Lembro que achei o valor do pacote relativamente baixo, mas pensei que
qualquer coisa seria melhor do que já havíamos passado então arrumamos as
tralhas, guardamos as bikes no hotel e entramos no ônibus que logo cedo já nos
aguardava na praça que ficava perto.
Estava ansioso para conhecer
ainda mais o grande Titicaca, havia estudado sobre muitas de suas atrações,
como as ilhas flutuantes de Los Uros e as “Mercedes”. A existência dos Uros já
se verifica desde a era pré-colombiana, quando um povo homónimo desenvolveu
esta forma de habitação tendo em vista maior segurança. Os Uros são feitos à
base de totoras, uma espécie de planta aquática, e é necessário constante
trabalho de manutenção para assegurar a flutuabilidade de tais ilhotas onde os
residentes pescam, caçam pássaros e nos últimos anos exploram o turismo com a
venda de artesanato. Elas têm cerca de 2000 habitantes espalhados em 87 ilhas.
O idioma que eles falam é o Aymara (semelhante ao Quechua, mas da era
pré-inca). Algumas palavras: kamisaraki (é uma saudação, tipo “como vai você?”)
e waliki (resposta para pergunta a anterior, como “bem”). As “Mercedes” são
barcos feitos também de totora e possuem um formato bastante peculiar.
Chegamos ao cais e fomos
direcionados para um dos muitos barcos que fazem o passeio no lago. Começamos e
navegar e não demorou muito para avistarmos as ilhas flutuantes no horizonte.
Ao chegar mais perto foi pude perceber a grande dimensão, uma verdadeira cidade
flutuante. Los Uros é um daqueles lugares que são mostrados em documentários do
Discovery Channel, realmente muito impressionante. São várias pequenas ilhas,
onde as famílias recebem os visitantes e demonstram através de encenações como
é a vida no local. Ao desembarcarmos fomos recebidos com cantos, havia só
mulheres, todas com vestidos coloridos, depois ficamos sabendo que os homens da
família estavam fora em busca de mais totoras para manutenção do lugar.
Fomos conduzidos para sentar e
começamos a assistir uma apresentação sobre a cultura Aymara, enquanto uma das
mais idosas falava, percebi que uma jovem começava a descascar os talos de
ramos de totoras que logo depois nos foi oferecida para comer, parecia palmito,
mas o gosto não muito agradável tinha uma textura esponjosa, comer aquilo só se
for para não morrer de fome, mas valeu a experiência. Terminada a apresentação,
fomos convidados a entrar nas cabanas também feitas de totoras e vestimos
roupas típicas o que foi muito divertido, fizemos várias fotos. Depois começou
a demonstração e venda de artesanato, muitos não conseguiram resistir e
compraram várias peças.
Pagando alguns soles fizemos
também um passeio nas “Mercedes”, o barco levava confortavelmente no mínimo 10
pessoas e seu movimento lento movido a remo, pudermos relaxar um pouco e
apreciar a paisagem. Paramos em outra ilha flutuante para um rápido lanche e
subimos no barco a motor para continuação de nossa aventura.
Pude perceber o quanto enorme é o
Titicaca, foram mais de 3 longas horas de barco até chegarmos a Ilha Amantaní.
Perto do desembarque o guia começa a falar um pouco da cultura local e o que
iríamos vivenciar, foi aí que a ficha começou a cair e um clima de preocupação
pegou todos expedicionários de surpresa. O guia informou que iríamos ficar
hospedados em uma casa de família do povo Aymara na comunidade Occopampa e que
iríamos experimentar os costumes locais, sendo que o mais nos chamou atenção
foi o tipo de comida, vegetariana! Estávamos famintos, sonhávamos em comer bem,
daí a nossa agonia...