 |
| Esron Carvalho (Nino) |
A resenha do último dia de pedal da Expediçao TransAndes deveria começar
em Panguipulli, passando por Lincanray e Villarrica, até o retorno a
Púcon. Seriam exatamente 78 km e 775 m de altimetria.
Seriam. Mas não era assim que os espíritos guerreiros que dizem
habitar as cordilheiras queriam.
Desavidados, chegamos ao Puerto Pirehueico atrasados para pegar a
‘barcaça’ que fazia a travessia até o PUERTO FUY. A travessia era
feita apenas uma vez ao dia, às 16 horas. Chegando 1 hora após a
saída do barco, teríamos que nos hospedar no pequeno vilarejo. Era
um lugar bucólico, com uma vista cinematográfica para o lago e os picos ainda
cobertos de gelo no topo. Ao menos não havia nenhum vulcão por perto.
Se os imprevistos nos impediu de pedalar, foram eles que nos
permitiram uma boa noite de resenhas ao calor da lareira e algumas PISCO SOUR.
Uma boa noite deconversa sobre as muitas histórias que já tínhamos
para contar. E se as bikes falassem, como elas agradeceriam o dia de
descanso. A viagem estava fantástica. Mas o terreno não estava nada fácil, e
sem promessas de melhora. O que tirava o sossego do nosso descanso obrigatório
era o acúmulo de distância e altimetria para o último dia. Resolvi
aproveitar o sossego do lago e o tempo disponível para fazer algumas
ponderações sobre o ano que se anunciava. Eu fiquei
introspectivo. Mas 2014 ainda vigorava, e a Expedição TransAndes
encerrava com chave de ouro o ano.Pablo Neruda, um os maiores escritores chilenos de toda a história,
dizia que ‘Se não escalarmos a montanha, jamais poderemos desfrutar a
paisagem’. O mesmo falou que as poesias não são de quem as escreve, mas de quem
as usa. Pois bem. Esse lema então é nosso. É do Mural de Aventuras. O que mais
fizemos nos Andes foi subir íngremes e intermináveis ladeiras. Em cada
ladeira eu me questionava o que tinha ido fazer ali? Bastava olhar ao redor e
sentir. Desbravar as cordilheiras chilenas dispensava o uso de qualquer
aparelho sonoro. É como se ouvíssemos a todo instante o sino da
liberdade. Lembrava sempre da minha mãe (in memoriam), fã incondicional
de viagens extraordinárias, mesmo sem nunca ter realizado uma.
Voltando ao último dia de pedal da expedição, e com os imprevistos da
travessia, teríamos quilômetros e muita altimetria acumulada para brocar no
último dia. E se a travessia só era feita uma vez ao dia, sempre às 16 horas,
nos tínhamos certeza que esse seria o corujão da
Expedição. Mas e o tempo para apreciar a paisagem? E o frio?
Dava pra imaginar. E lamentar. Alguns até desejaram estar no lugar
de Maurão e Sabrina, baixas irreparáveis da expedição. Eles estariam ausentes
fisicamente, mas nos acompanhariam como sombras. Estariam presentes em todos
os momentos de parada, em todas as resenhas, até nosso desejado
reencontro em Púcon.
Finalmente as 24 horas se passaram e a travessia aconteceu.
Pouco mais de uma hora no barco, e já no PUERTO FUE, não teríamos tempo para
muita conversa. Era a hora da brocação. Após embarcarmos Sabrina com segurança
até Púcon, partimos naqueles que seriam os 30 km mais rápidos de toda
Expedição. Sem atrasos com bikes avariadas, sem MIMIMI. Partimos , e além
da necessidade de chegar, havia uma ansiedade geral em todos para
seguir. Os lagos andinos nos encantaria até a região de LINCAN RAY,
mas não teríamos muita oportunidade para contemplar todo o visual em função do
tempo que teríamos para chegar ao destino final, e pela noite que tomaria conta
da viagem às 22 horas. Mas Expedição é isso: você pode fazer os
melhores planejamentos possíveis, mas são os imprevistos que tornam
tudo inesquecível. E os melhores momentos da aventura não estavam
nos planos.
No percurso até Panguipulli passamos pelo ônibus de Sabrina, que com um
aceno de mão desejou sorte ao grupo e coragem para enfrentar o frio
que chegaria junto da escuridão. Ela desejava sorte e também suspirava
aliviada. Tinha sido uma guerreira pedalar com a bike avariada e acompanhar
outros 7 loucos na expedição. Mas ela havia comprido sua
sentença. Coloca corta-vento. Tira corta-vento. Coloca. Tira. É que
o vai e vém de ladeiras era interminável. E a temperatura caia constantemente.
Nos caminhos que nos levaria de volta à Púcon, um cenário lindo com
lagos intermináveis, com mirantes distribuídos ao longo do percurso, margeados
por morros de pedra s que caiam com certa frequência na estrada. Era
assustador. As pedras soltas eram realmente um perigo. E de vez em
vez, parávamos para esperar Odi, que ainda próximo ao Mirante Toledo demorou
mais que o habitual. Ele confessou ter chorado. Mas não era saudade de casa,
muito menos medo das pedras soltas que caiam na estrada. ’ Que pása Odi?’. Dor. Odi
chorava de dor. Mas não tinha muito tempo para lamentar. Faltavam muitos
quilômetros e o GPS indicava uma boa altimetria a ser vencida. Um comprimido de
Dorflex para enganar a dor e uma palavra de conforto para
seguir. Ainda faltava muito caminho pela frente e algumas lanternas
ameaçavam descarregar quando a escuridão chegasse.
Os poucos quilômetros de bom asfalto deram lugar aquele que seria o
terreno de praxe do trajeto: estradão de chão irregular, trepidação
e muita pedra solta. E a cada ladeira que se iniciava parecia que havia alguém
segurando a bike. Mas eram os alforges que pareciam pesar mais. E
junto com a escuridão da noite o temido frio ia chegando. A cada
dificuldade que surgia eu entendia quando Elsão falava da necessidade de
participar de uma trilha Nível 5, como a Serra da jiboia, como preparo para
Expedição. Na verdade, acredito que é preciso participar de algumas trilhas bem
difíceis como a Serra, e encarar a expedição de peito aberto e de forma
destemida. Senão...
VRUM VRUM. O arsenal de piadas de Kadjon da noite de descanso no Puerto
Pirehueico ainda estava fresco na memória, e foram essas piadas que nos faziam
esquecer o frio que já tomava conta da expedição. De meia em meia
hora, no meio das ladeiras mais íngremes, Kadjon parava a bike e
dizia: “Elson velhooo, vamos acender uma fogueira”. É amigo, não estava fácil
não. Mas Kadjon ainda apelaria. Não obtendo êxito com a ideia da fogueira,
parou novamente com suspeita de hipotermia. Suspeita levantada por
ele próprio. Não era MIMIMI não, estava frio
mesmo. E o terreno continuava não ajudando. Mas não viemos ao Chile
para desistir por nada. A noite fria só nos ajudou a amar mais nossas trilhas
diurnas na reserva de Sapiranga. Dava uma saudade louca. Saudade maior deu da
garota que tinha me convidado para passar o fim de ano no nosso litoral baiano.
A lembrança do calor dos braços dela era um acalanto para mim.
Foi no meio da madrugada, cada um com o rosto mais exausto que o outro,
e a poucos km de Lincan Ray, que fizemos a parada mais longa. O frio castigava.
Encontramos um cercado de concreto no meio da estrada que nos
abrigou do frio. Para todos, naquela situação, estava tão confortável quanto o
hotel no qual nos hospedamos em San Martin de Los Andes, ainda em território
argentino. Eram quase 3 da manha e a sensação que eu tinha é que só havia nós
muralistas acordados em todo o Chile. Nós, o frio e a saudade. As piadas
repetidas de Kadjon ganhavam novos requintes e as gargalhadas pareciam aquecer
o corpo. E a cada piada Kadjon repetia o desejo de acender uma fogueira. Não
tínhamos tempo para isso, e a parada de descanso só
se estendeu porque Elson ainda teve tempo para se entalar. É
companheiro. Não tava fácil pra ninguém!E
a cada ladeira cabulosa que subíamos começávamos a ter pensamentos distantes.
Os familiares que nos esperavam, a beleza de tudo que já tínhamos visto, as
semanas de espera antes da viagem. Até a lembrança do malabike
estendido no chão semanas antes de embarcar me veio a mente. É que as ladeiras
eram tão grandes que parecia que íamos chegar ao fim do mundo, mas Púcon não
chegava. Chegamos no meio da madrugada em Villarrica, restando ainda 27 km
para Púcon, e faltava água e comida, só não faltava fôlego. Hora de repartir o
que ainda restava, e sair em odisseia atrás de água. E Rei, como que num
desabafo, definiu o momento. “Puts, esses 27 km vão
parecer 270”. E estava certo. Voltamos a acelerar o ritmo porque a vontade de
chegar agora falava muito mais alto. E com o raiar do dia chegamos à Púcon. Depois de exatos 142 km de pura
aventura, e que certamente deixaria saudade apesar do esgotamento
físico. Mas na chegada ainda haveria espaço para mais um
acontecimento inusitado. Daqueles que nem o mais precavido pode imaginar
acontecer. Éramos 8, com duas baixas dos dias anteriores, deveríamos
chegar em 6. Pára tudo. Apenas 5 haviam chegado. Plech estava ausente. É mural,
ele conseguiu se perder nos últimos 2 km da viagem. Enfim juntos, seguimos até
as cabanas que nos aguardava, devidamente sinalizado com a bandeira do Mural de
Aventuras. Chegamos! O Chile voltava a ser uma doce terra. Era o fim de mais
uma expedição. Agora era descansar um pouco, preparar os
malabikes novamente, e brindar o sucesso de mais uma grande
aventura. Voltaríamos para casa com infinitas histórias para contar.
Particularmente, eu sou todo agradecimentos ao Mural de Aventuras por
proporcionar a maior aventura da minha vida. Espero superá-la, e claro,
participando de mais uma expedição dessa família maravilhosa que é o Mural. Foi
extraordinário. ‘Adiós Chile...’Viva Chile. Viva Pablo Neruda. Viva o Mural de Aventuras! Esron Carvalho (Nino).
 |
| Iane Sabrina (Bina) |
Primeira Expedição com grandes e
inesquecíveis emoções. Não podia ser diferente, afinal, estamos falando do
Mural de Aventuras – A Emoção dos Desafios. Sou a única expedicionária do
grupo, confesso que foi uma responsa e tanto, até por que, não podia fazer
feio. Passamos por diversas situações, fossem aquelas de ficar com os olhos
abertos apreciando a natureza que nos acompanhou por toda viagem, como também,
pedalar, pedalar e não achar nada para comer por muitas horas. Deu até
calafrio, tontura e desespero. Nessas aventuras, a gente aprende a viver com o
básico, ou sendo mais expressiva, com o que tem. É isso ou fica sem. A cultura
é completamente diferente da que vivemos. Fomos sempre bem recebidos. Foi lindo
ver o olhar assustador e ao mesmo tempo, curioso das pessoas ao nosso redor. A
nossa união e entrosamento chamava atenção.
O último dia me trouxe algumas
surpresas. No terceiro dia, havíamos
parado diversas vezes para regular o câmbio traseiro da minha bike e,
quando eu menos esperava, eis que ele entrou nos raios e quebrou. Naquele
momento, minha única vontade foi de soltá-la ladeira abaixo. Rei e Plech
cortaram a corrente e pedalei até onde deu já sabendo que no dia seguinte teria
que seguir de ônibus ou de carona. Após descer do ferry fui até o ponto de
vendas de passagens para
descobrir que não tinha ônibus. Fiquei sem saber o que fazer e todo
carro que passava parávamos para perguntar pra onde ia e se podia me levar – eu
tinha que sair dali. Depois de umas 10 tentativas, conseguimos e saí logo, deixando os meninos se
arrumando. A carona me levaria até um vilarejo. Por sorte, passamos por um
ônibus e resolvemos perguntar qual o seu destino. Era Huilo Huilo então resolvi
ficar ali mesmo. Antes do ônibus sair, os meninos passaram por mim e como não
tinha entrado ainda, gritei-os. Eles pararam, fizemos a maior festa e depois
seguiram. Entrei no ônibus e fiquei olhando sem piscar até que minhas vistas
não os alcançassem mais. Seguimos viagem. Estava apreensiva. Queria encontrá-los
o mais rápido possível. A estrada de cascalho estava ruim, o motorista ia
devagar. Chegamos no asfalto e de cara
tinha uma subida íngreme, sinuosa e longa. Só pensava neles e no sofrimento que teria sido subi-la.
Depois de alguns minutos, o cobrador
veio do andar de baixo, falando “seus amigos, seus amigos”. Meu coração
disparou. Não contive a emoção de ver meus amigos cumprindo o desafio e chorei
de felicidade, de emoção. Quando cheguei na cabine o motorista a buzinar, os
meninos acenavam pra gente. E eu ali, sem poder ir com eles. Fiquei olhando
pelo retrovisor até não vê-los mais. A viagem naquele ônibus parecia não ter
fim. Eu queria estar com eles, mas não tive a opção de escolher, por mais que
quisesse. Era dia e enquanto avistava aquela passagem linda, fiquei pensando
como seria se estivesse com eles e como estava sendo sem mim, sem mais um
expedicionário. Ao chegar no terminal rodoviário de Huilo Huilo achei uma Van
que seguia até Panguipulli. Tive sorte de encontrar um motorista simpático que
se solidarizou com minha situação e ligou para seu amigo pedindo que me esperasse na cidade seguinte. Eu
tinha que dormir em Pucon, estava com medo de dormir em outra cidade sozinha e
sem conhecer ninguem, e Maurão já estava
lá me esperando. Ao chegar em Panguipulli, entrei na Van e por sorte, era
grande e a bike foi numa boa. O motorista muito simpático, disse que adora as
brasileiras e quando chegamos em Licanray não deixou que eu pagasse, com a
justificativa que somos lindas e por isso não precisava pagar. NEM QUERIA! Já
estava quase sem peso chileno (moeda local). Peguei o coletivo já dando ré pra
sair da rodoviária sentido a Pucon. Ele me ajudou a colocar a bike, nos despedimos
e entrei no ônibus. Apesar da viagem ter sido tão corrida e tensa, mesmo assim
não parava de pensar nos meninos. Queria saber como eles estavam. Precisava
falar como era a estrada. Após chegar em Pucon, montei na bike e sai sozinha as
22h à procura de um lugar que tivesse wi-fi para que eu pudesse comunicar com
eles e com Maurão pra saber onde eram as Cabanas. Achei uma lanchonete e por
coincidência estava passando o DVD de Natirus, conversei com o garçom sobre a
banda e aproveitei pra pedir um crepe que por sinal estava maravilhoso e,
enquanto comia, consegui falar com Elson (eles tinham parado para comer pizza)
e com Maurão, informei onde estava e o mesmo foi me encontrar. Tudo resolvido,
fomos para as cabanas pedalando e, ao mesmo tempo, contando os perrengues.
Quero agradecer a cada um de vocês por esta viagem incrível. A lição que tiro é
simples, seja feliz. Faça o que você gosta e que te faz bem. Aproveite as
emoções que a vida te proporciona. Obrigada! Iane Sabrina (Bina).