Já
acostumado com as diversas trilhas e ciclo aventuras do Mural, Cerqueira estava
com muita vontade em se aventurar em algo mais desafiador, intenso e inédito,
uma Expedição! Foi aí que finalmente se
engajou na Expedição Serra do Rio do Rastro e Circuito Vale Europeu em Santa
Catarina e tornou-se Expedicionário do Mural ! A vontade era tão intensa que
não se cansava em repetir ao longo da viagem : “Sou expedicionário !!” Como ele,
mais da metade do grupo compartilhava da mesma sensação de estreante. E da
mesma aflição também.
Mas
a aflição nunca é privilégio de quem é estreante. Nino, expedicionário ávido (criou
até expedição própria) compartilhava da mesma apreensão. Até porque cada
expedição é diferente da outra, sempre reservando surpresas e desafios
próprios.
O
Vale Europeu é um circuito mágico para os ciclistas. E o 3 º dia de expedição (
2º de Vale Europeu) prometia ser dos
mais puxados. Entraríamos finalmente a parte alta do circuito e a menos
habitada também. Partimos de Rodeio após o 1ª pernoite realmente bem dormido da
Expedição! Tudo isso porque no dia anterior passamos a madrugada dentro de uma
Van (Transfer de Orleans/SC a Timbó/SC) e saímos direto sem repouso, após um
café na pousada e guarda dos mala-bikes. Uma boa noite de sono é imprescindível
numa expedição, já que nunca se sabe quando se poderá descansar o suficiente
para o desafio do dia seguinte. Até esse
dia o bumbum de Cerca estava de boa, mas já avisando que pagaria um preço por
tantos dias consecutivos em cima de um selim duro e sem uso de um cremezinho anti-assaduras...
Carimbamos
nossos passaportes do Circuito na Hospedaria Cama Café Stolf e partimos bem
cedo rumo a Alto Cedros, com passagem por Doutor Pedrinho. O chão um pouco encharcado
dava sinais que finalmente a previsível chuva chegaria até nós. Todo mundo,
portanto, com o corta-vento ao alcance das mãos.
Poucos
km saindo de Rodeio a Doutor Pedrinho inicia-se a subida do Morro do Ipiranga. Foram
intermináveis 8 km de subida ! Visual lindo, um verde mais verde que já vimos,
abundante em vales, cascatas, campos e serras, mas presenciando tudo isso na
canseira das extenuantes subidas, não é mesmo Serjão? Rsrs. Ele talvez não se
preocupasse em ser retardatário nas subidas porque o cenário compensava
qualquer sensação de abandono. E de que vale fazer uma aventura como essa se
não refletirmos sobre nossas vidas? O vale era o ambiente propicio para que ele
pudesse pensar nos gêmeos que estavam para chegar e nas novas responsabilidades
que viriam com seu nascimento.
O
circuito é conhecido por Vale Europeu, mas pode chamá-lo de Circuito das águas.
E é sempre encantado. O 3º dia de expedição provaria com esmero essa máxima.
Para cada canto que olhássemos havia fontes d’água e uma infinita quantidade de
pequenas cachoeiras. Completar o circuito leva normalmente 1 semana.
Normalmente! Mas quem conhece o Mural de Aventuras sabe o quanto ele é fora do
comum.
No
caminho ficamos todos impressionados com um trecho conhecido como Vale dos
Anjos (El Picol Paradis – O Pequeno Paraíso), imponente expressão religiosa dos
descendentes italianos, ainda em Rodeio. Uma estrada de chão com 64 anjos de 1,85m perfilados nas duas margens. 64
anjos? Sim ! E todos esculpidos pela mão de um único homem de fé, o Senhor
Paulo Notari, ainda vivo, e com 86 anos. Foi com barro e com as próprias
mãos que ele deu forma às estátuas. As estátuas nós não contamos é claro ( as
informações estão disponíveis em qualquer site de busca...rs).
Entre as estátuas esculpidas, vários pés de hortênsias
enfeitavam ainda mais o caminho. Impressionante era ver ao longo da
estrada os senhores e senhoras de idade cuidando com alegria e disposição de
seus jardins. Os moradores realmente fizeram daquele pedacinho de Santa
Catarina um lugar muito especial para se viver. Quem não tem jardins por
dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles, já dizia o poeta. E
‘El Picol Paradis’ era a prova definitiva de que os moradores dessa região
sabem que toda idéia de paraíso passa por infinitos jardins.
Logo adiante mais uma surpresa: um Monumento (Réplica) do
Cristo Redentor de três metros de altura, de concreto e pó de mármore, cercado
por 33 anjos que, graciosamente, seguram buquês de hortênsias. Uma
miragem ou visão do paraíso. Uma outra obra de Seu Paulo. Ele sempre
sonhou em criar um portal para o paraíso e criou sua própria versão dele. As casas, mesmo
num trajeto remoto como este que pegamos, continuavam muito bonitas e
convidativas. Novamente o sangue europeu se via nos pequenos detalhes daquele
povo alegre e convidativo.
E a expedição seguia com muita estrada para pedalar e Serjão
parecia representar o “Exercito de um homem só”. Isso porque, mesmo com a experiência
dos TransAlpes,
ele sofria com a falta de treino e o peso de suas bagagens para 3 semanas! Teve
que distribuir o peso com os expedicionários mais fortinhos...
Rogério
e Nino revezavam na companhia de Serjão no pelotão de trás. E quando o grupo
parava para esperar os mais lentos, algumas piadas pareciam não ter mais graça:
Marcelão já não caia mais nas rimas com Ú! Depois de cair em 3 pegadinhas, só
terminava as palavras com IVIS...kkk. Enquanto isso, Lucas aumentava o som para
disfarçar a saudade de alguém e Phillipe se esforçava em estar junto ao chefe e
fazer jus ao apelido de “Segundinho”. Então era Elsão sempre no comando e
Philippe (segundinho) atrás...kkk. Pedala muito esse jovem atleta!
A
caminho de Dr Pedrinho uma placa apontava, saindo do trajeto principal do
circuito, o caminho para Cachoeira do Zinco. Alguns titubearam e pensaram em
não seguir até a cachoeira, mas não quiseram aparecer nesta resenha com o
famigerado adjetivo de “arregoes”. Quem terá sido? Seguimos subindo e muitoooo
até o mirante da Cachoeira do Zinco com seus 70 metros de queda d´água ! As
fotos e contemplação rolaram em alta.
Enquanto
todos apreciavam o visual deslumbrante Guga, Rei e Nino contornaram a serra com
a intenção de carimbar o passaporte na pousada Campo do zinco. Ao chegar lá a
pousada estava fechada e eles teriam perdido a viagem se aquele lugar a esmo
não fosse o começo de outro paraíso. A natureza foi muito generosa ao redor da pousada.
E eles puderam ver a cachoeira do alto de sua queda e dar um olá aos
companheiros que os avistavam de longe. Lucas e Cerca foram descobrir uma outra
queda d´água bem perto do mirante num caminho proibido. Depois das subidas,
claro vem as descidas... o peso do bagageiro que tanto dificultava nas subidas
davam em contrapartida uma ótima estabilidade nas descidas ! Brocação em alta
pegando todas as tangentes ! Rei (brocador mizeravão) filmava tudo com sua
câmara no capacete. Numa dessas tangentes Giu e Guga quase se esborracham, em
momentos distintos.
Do
Zinco a pedalada segue, rumo a Doutor Pedrinho. A amplitude dos campos vai
dando espaço às plantações de arroz e seus espelhos de paisagem. Passamos por
Doutor Pedrinho com destino a Alto Cedros/SC, destino do dia. Almoçamos, a
tarde já anunciava sua chegada, o tempo mudou, choveu e fez um pouco de frio, o
que nos obrigou a colocar os corta-ventos. Antes se sair da cidade Nino, Rei e
Guga foram até a Bella Pousada, construída sobre uma colina e com o melhor visual de Doutor Pedrinho. Desapontada ficou
a proprietária Isabela ao saber que apenas desejavam carimbar o passaporte já
que o pernoite seria na cidade seguinte.
O
trajeto parecia que seria mais plano na segunda metade do trajeto, mas era só
impressão. Com ascenção de mais de 800 metros, ele está cheio de descidas e
subidas. Nada muito longo, mas algo constante, ao longo de todo o pedal. Se na
parte da manhã, no início da parte alta, já começava a parte isolada do
circuito, este se mostrou o mais ermo de todo o trajeto. Já ao sair de Doutor
Pedrinho a civilização foi embora e nem na chegada a Alto Cedros ela voltou.
São só estradinhas de interior, pouquíssimas casas e muita paisagem verde por
todos os lados. As plantações de arroz ficaram para trás e deram lugar aos
pinheiros.
O
sobe e desce não parava e seguimos nosso caminho. Próxima parada: Cachoeira Véu
de Noiva. Outra maravilha da natureza que pudemos apreciar. O som da queda
d´água era de arrepiar! Fizemos uma pequena escalada até o melhor ponto de
contemplação.
Quando
chegamos à Região dos Lagos já havia anoitecido. A região abriga as barragens
das hidrelétricas, cujo entorno abriga sítios, vivendas, e casas de veraneios. Quando
chegamos ao quase destino muitos ansiavam por comida e cama. Quase destino
porque paramos à noite em frente a um grande lago e Elsão revelou uma
surpresinha que estava guardada: A pousada era do outro lado do lago e teríamos
que atravessar de barco! Putz, uma hora daquelas, as mãos da galera estavam
enrugadas, mas atravessamos. Foram três viagens no pequeno barco a motor para
conduzir todos os muralistas ao local do pernoite. Chegando na recepção da
pousada o momento mais cômico e desesperador: O dono da pousada, Seu Raulino
Duwe, um senhor baixinho de sotaque estrangeiro, voz fina e mansa, conversa com
Elson:
(Sr.
Raulino) - Demoraram, hein? O que houve?
(Elson)
– É que nós fizemos 02 dias em apenas 01...
(Sr.
Raulino) - Vejam bem...os quartos estão logo ali a 70 metros e vcs terão 01 só
banheiro...O jantar está pronto, então seria bom se vcs já jantassem antes de
irem pros quartos...
(Elson)
– O quê ?!?! 01 (um) banheirooo pra 11 (onze) ???? PQP (em pensamento) – Amanhã
ninguém vai tomar banho então!! Esbravejou com olhos perplexos!
Então
jantamos sujinhos mesmo de 01 dia inteiro de trilha. O jantar, comida local e
caseira, estava divino! O Senhorzinho da pousada nos arrumou mais 01 banheiro,
aí melhorou demais. Fomos tomar banho, lavar as roupas e ainda deu tempo de
tomar uma gela e fazer uma resenha para Plech, que arregou pra essa maravilhosa
expedição, que não sairá da nossa memória !
Assim
como a torcida é o 12º jogador numa partida de futebol, nesse dia de expedição
nosso companheiro de câimbras Plech foi o 12º expedicionário. Bora Mural,
expedição que segue! Antonio Cerqueira (Cerca) & Esron Carvalho (Nino).
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4 comentários:
Expedição única com pessoas incríveis! A cada dia o Vale Europeu se mostrou surpreendente, a cada curva um visual de rara beleza. Realmente existe um pedacinho da Europa em Santa Catarina.
A resenha está um verdadeiro retrato desse dia da Expedição. Parabéns Nino e Cerca!
Bora Mural!!!
Essa dupladescreveu muito bem o terceiro dia. Revivi cada detalhe. Parabéns Nino e Cerca!
Fala galera, fico feliz em ser lembrado. Fiz a expedição com vocês, apesar de infelizmente não ter participado, fiquei na torcida para que fizessem com segurança e bricação!!!
Tô ansioso pra ver o video em minha homenagem. Posta aí Elsão. kkkkkk
Dia lindo e muito intenso; para contemplar tudo isso tem que pagar o preço com suor, e valeu cada gota, ainda com o extra da cachoeira do zinco que muita gente foge devido a subida duríssima. Entramos pela noite pedalando em um dos dias mais duros mas também recompensador. Incrível ver a paisagem mudar tanto em apenas um dia; primeiro com as plantações de arroz, a beleza da subida do vale, os pinheiro e a região dos lagos. Muito bom reviver cada momento compartilhado, parabéns pela resenha e pelas imagens. BMMP!!!!
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