Depois de relaxar um
pouco a ansiedade do primeiro dia, o segundo, pra mim, começou na madrugada
gelada de Fundo Los Añiques. Tive o azar de comer uma Hamburgueza com guacamole
na Rodoviária de Santiago que me deixou completamente desarranjado e o pior
tive febre e calafrios que imaginei que a expedição tinha acabado ali pra mim.
Amanheceu e 7:00 h da
manhã todos já estavam prontos para mais um dia de muita subida e suor mais antes
disso, tivemos um ótimo café da manhã nos “comedores” do hotel rsrsrs...
comedores é o mesmo de refeitório ou restaurante. Antes de sair, visitei o
jardim do hotel é claro e ao fundo havia uma descida de água maravilhosa e um
jardim repleto de plantas que nunca tinha visto. Tinha uma que eu conseguia
sentar dentro de apenas uma folha.
Na saída, a bicicleta
de Maurão já estava apresentando problemas no câmbio onde o salvador Plech deu
uma mãozinha.
Saímos do hotel e nos
primeiros metros de pedalada, Elson lembrou que percorreríamos uns 60 km sem nenhum lugar de parada para reposição de água ou
comida. Logo, retornou com Rei para ver se encontrava alguma coisa aberta na
cidade e assim, comprou mortadela, água e um limão siciliano para temperar o
quitute.
Depois da primeira
subida, nos deparamos com uma belíssima ponte cruzando uma corredeira com águas
cristalinas que hipnotizavam qualquer um que ousasse ficar parado olhando e
logo a frente paramos num desfiladeiro com um imenso vale que seguia as águas
de degelo até desaguar nos Setelagos. Após, aproximadamente, uns 3 km de
asfalto, para nossa alegria, começamos a limpar os pneus com um belo estradão
de terra e pedras soltas que formavam um poeirão pra quem ficava atrás com o
Urso desmetido das montanhas Chilenas.
Foi chão, muito chão
e enquanto isso, o câmbio de Sabrina só resmungava...
Valeu muito a pena a
sofrência do segundo dia... cruzamos vales de Araucárias gigantescas, vales e
campos abertos com paisagens inesquecíveis. Falar em inesquecível... a
amplitude térmica era incrível!!! Depois de percorremos uns 35 km começamos a subir muito até chegar em uma ponte de
concreto onde paramos para aguardar Sabrina já que o câmbio traseiro dela já
não estava correspondendo normal. Neste momento deitamos na ponte para
esquentar o corpo pois, o sol era intenso porém, o vento causava uma sensação
de 16 º C e isso, desgastou muito a todos já que era ainda 10:30 da manhã.
Nessa ponte, aproveitamos para repor a água e mais uma vez a qualidade e a
temperatura da água deixou todos espantados... estava tão gelada quanto a água
da geladeira de nossas casas. Lembrei que tinha levado a bandeira do meu pai e
a partir dai foi minha parceira nas fotografias junto ao grupo.
Não imaginávamos o
que ainda estava a nos esperar. Após essa ponte, subimos muito por uma vale
erodido com muitas valas e locais que era impossível pedalar passamos uns 45
minutos nesse sofrimento.
Depois de 04:31
minutos pedalando e 13:20 h da tarde com,
chegamos ao Paso Fronterizo Carirriñe (Avanzada Carirriñe – Carabineros de
Chile) um pouco assustados mais no final tiramos fotos com o soldado chileno
carimbamos os passaportes e não esquecendo, em todas as Aduanas que chegamos,
os fiscais queriam ficar com meu mix de castanhas e nozes daí escondi no fundo
da Camel Back e não fui mais incomodado.. Mais uma vez um ladeirão para
finalizar a primeira vitória na cordilheira dos Andes!!!! Mesmo assim, no meio
do percurso paramos um pouco para melhorar a oxigenação pois o frio e a
altimetria não estava ajudando muito na respiração. Com isso, cheguei a deitar
embaixo de uma árvore e fiquei alguns minutos para me recompor.
Depois de 2 km já em
solo argentino, encontramos dois Hermanos (01 argentino e 01 chileno) e estava
fazendo a altimetria inversa. A partir daquele momento eles começaram a descer
e por felicidade nossa, eles informaram que dali em diante seria muita descida,
porém, faltavam apenas 92 km para chegar a San Martin de Los Andes e
exigia cuidado especial, pois teria muitas pedras soltas e terra fofa... foi
dito e certo!!! Rsrsr o decidão pedia para soltar e tacá-lhe pau mais com o
excesso de altimetria, já doía tudo.
Como todos estavam
com a água a um bom tempo na Camelbak, decidimos substituir por uma mais nova e
gelada. Encontramos uma pequena cachoeira nas margens da estrada e algumas
pessoas chegaram a jogar a água do Camelbak fora porém, ao colocar a mão na
cachoeria perceberam que era termal e estava acima de 40ºC. Foi um desespero
para todos.
Logo a frente,
encontramos uma família acampando num parque chamado Sendero Huella Andina,
onde pedimos informações do local mais próximos para comer alguma coisa.
Continuamos a pedalar
e encontramos mais um rio que foi a nossa salvação. Enchemos as Camelbaks com
água hiper gelada.
Depois de mais um
caminho sinuoso e com muitas subidas encontramos o El Escoria Um caminho de
lava vulcânica conhecido como Tumultuoso rio sólido. E a fome apertava e nessa
brincadeira já chegávamos a 76 km de pedal. A
partir dai só tinha paisagens maravilhosas as margens de um grande lago com
muitas Araucárias contornando a pintura!!! Perfeito.
Chegamos ao Parque
Nacional Lanin (desviamos 6 km do nosso percurso em uma estrada coberto de
cinzas vulcânicas) para descansar um pouco e comer umas hamburguesas... pedimos
03 Hamburguesas para cada Muralista. Aproveitamos e tomamos umas Quilmes
geladas e dai tivemos uma nova suspresa!!!.. o quadro de Maurão estava quebrado
em outro lugar e vamos procurar bambú para fazer mais um torniquete. No final
da história, perdemos quase 01 hora e pelas minhas contas, a bike de Maurão, passou
a ter mais bambú do que carbono.
Dessa vez foi em um
local que não teve como Maurão prosseguir e a partir dai foi uma luta para
rebocar o “coroa”!!!!. O bambú começou a prender a roda traseira e com isso,
paramos mais uma vez para tentar separar um pouco mais o bambú do pneu e
aproveitei para me livrar do restou a hamburquesa da rodoviária. Tivemos que empurra-lo
até conseguir uma carona com um “Hermano” que passou com uma caminhoneta.
Quando encontramos a carona, faltava menos de 5 km para a fronteira.
Maurão conseguiu uma
carona até o Paso Internacional Carirriñe (lado Argentino) Control Migratorio
Aduaneiro onde chegamos as 21:35 h. Os soldados carabineros da fronteira
ficaram assustados com a nossa chegada. Imagine você, chegar 07 ciclistas de
balaclava, corta vento, com apenas os olhos de fora rsrs!!!! E ainda Maurão já
estava lá com eles. Foi incrível quando começamos a contar sobre a Expedição,
falar que éramos brasileiros... a hospitalidade e o carisma mudou
completamente. Tomamos chimarrão, sidra argentina (não é igual a brasileira não
mas, tudo bem) e até conseguimos nos aquecer na lareira. Antes de voltar para
estrada, pedimos para Maurão (foi de Taxi até San Martin de Los Andes) para ele
reservar o hotel e enviar, por whatsapp, o endereço para Odilardo. Lembramos a
ele para que enviasse pelo whatsapp de Odilardo e não do grupo da Expedição
para não deixar as esposas e familiares preocupados. Maurão enviou o endereço
para o Whatsapp do grupo e dai a esposa de Odilardo ficou desesperada e ligou
para minha esposa pensando que tinha acontecido alguma coisa com ele. Até
explicar tudo, a coitada já tinha chorado muito.
Saimos da Fronteira
depois de 01 hora de liberação e carimbadas nos passaportes... 22:15 retornamos
a pedalar.
A
estrada era uma escuridão só. A temperatura caiu rapidamente, chegando a 9 ºC
e, depois de 2h e 39 min de pedalada a fome bateu sem piedade. Paramos
estendemos a velha bandeira de guerra do Mural no meio da estrada e fizemos
nosso piquenique estilo TRANSANDES: Hamburguesa, lembra da mortadela e do limão
siciliano? Foi a nossa salvação. Nesse momento a temperatura estava 9,6 ºC.
Depois do piquenique, quem imaginava que estava perto... começamos a ver luzes,
apareceu uma ponte e paramos um pouco pensando que era a entrada da cidade....
NADA!!! Era ilusão!!! Quando eu vi nuvens carregadas e refletindo o vermelho de
lâmpadas de mercúrio, só dava pra ver a sombra de uma montanha gigante... foi
dito e certo. San Martin de Los Andes estava do outro lado da montanha.
Montanha que nos castigou com 1480 m de altitude e sofri com dores nos dedos
que tive que tirar as sapatilhas para colocar Spray de Cataflam, enquanto isso
Elsão me perturbava dizendo que nunca tinha visto aquilo.. Odilardo teve que
tirar a roupa para colocar a segunda pele por que não estava resistindo o frio.
No meio do nada, nos deparamos com um Gambá daqueles preto e branco como disse
Esron: - Igual ao do desenho rsrsrs!!! depois o decidão foi gratificante e ai
já a 12,2 ºC chegamos na entrada de San Martin de Los Andes 01:36am de 28/12 depois de 105km. E fomos direto para o Hotel Del Viejo
Esquiador (reserva feita por Maurão) para um bom banho e descanso.
Kadjon Layno.
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5 comentários:
Parabéns Kadjon pela bela resenha. Esse dia foi muito especial quando cruzamos a fronteira do outro lado da cordilheira.
Kadjon, eu fui sofrendo na medida em que lia sua resenha! Frio e fome arrebentam nas expedições, mas nos tornam mais fortes. Parabéns pela resenha!
Um espetáculo de imagens, sensações, experiências, amizade e superação! Expedição do Mural de Aventuras é a busca constante pela Emoção dos Desafios onde desistir somente é permitido quando tudo que pode ser feito tenha sido tentado, foi assim com a situação de Jose Mauro Chagas. Parabéns Kadjon Layno pela resenha, parabéns irmãos Expedicionários por tudo que vivemos em mais esse dia. Bora Mural!
Massa Elson. Realmente foi assim com Maurão e Sabrina. Até nas trilhas é assim, muralista que é muralista nunca desiste, nem deixa o outro desistir.
BMMP
O segundo dia foi o mais difícil pra mim e consequentemente, inesquecível. O cansaço da viagem e do primeiro dia ainda estavam presente. Dormimos pouco, mas formos agraciados com a piscina termal. Saímos cedo e formos compensados pela vista incrível. Atravessamos os Andes e nosso destino era San Martin. Demoramos muito pra achar comida, chegamos a passar mal de fome. Essa viagem foi demais. As fotos e palavras de Kadjon me fez relembrar cada pedalada. Deu vontade de fazer outro piquenique. O Mural é minha segunda família. Todos os momentos foram marcados pela união e solidariedade de todos. Fiquei muito feliz por ter representado as Muralistas. Bora Mural! 🚴🚴
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