Terceiro dia de expedição, acordamos após 4 horas de sono
nada reparador no hotel Del Viejo Esquiador. Hotel muito bom, no centro da
cidade, bem decorado e com ótimas instalações. Boa escolha Maurão! Descemos
para o café com fome de prisioneiros de guerra, por sorte o café foi salvador,
tinha frutas, pães, sucos, tudo que precisávamos. Só a demanda que era grande e
a reposição não conseguia acompanhar a fome dos expedicionários.
Abastecidos, fomos preparar as magrelas para mais um dia de
desafio, consertos aqui e reapertos ali, um pequeno atraso na saída, mas todas
as bikes em ordem. Partimos enfim, Elsão, Rei, Plech, Kadjon, Sabrina e eu.
Dessa vez sem a companhia de Maurão que não pode continuar na Expedição devido
a quebra de sua bike no dia anterior.
Na saída aproximadamente as 11hs podemos observar um
pouquinho da cidade enquanto pedalávamos já em direção ao nosso próximo destino
Panguipulli, o que pareceu ser muito bonita e turística. A temperatura estava
ótima para pedalar com um sol forte que esquentava o corpo já cansado. Seguimos
umas duas quadras e parecia que seria um dia de pedal leve, até virarmos a
direita e olha o ladeirão, subimos ofegantes ainda com o corpo frio pois
tínhamos pedalado poucos metros. No topo saímos do asfalto e seguimos uma
estrada de cascalho, nos afastando de San Martim de Los Andes. Estrada esta que
também era ladeira acima e interminável, quanto mais pedalávamos e subíamos,
mais ladeiras surgiam a frente. O movimento de carros era intenso,
especialmente em nosso sentido, caiaques, barcos e muitas bagagens a bordo. O
destino parecia ser especial para a população a procura de diversão.
Como recompensa de muita subida e sofrimento, uma grande
descida? Não, nem tanto, uma descida boa mas curta, com um visual de um vale
largo onde a estrada cortava ao meio com uma reta até o pé de outro morro de
araucárias. Uma estrada reta sem subidas em plena cordilheira deveria ser como
um oásis no deserto, mas tava mais para miragem ou pegadinha. O cascalho era
fofo, com muitas pedras e o vento era contrário e muito forte. Formamos aquela
fila indiana mas nem assim ela permanecia unida, aos poucos uns iam desgarrando
e ficando. Força para reunir e nada, difícil manter o ritmo. Precisou ter uma
parada para reagrupar. Sofri mais nesta reta do que nos 4km de subida
anteriores, ou foi consequência da subida, quem sabe, eu não volto lá para
descobrir. O visual como sempre maravilhoso, paredões de pedra e árvores em
todo o lado e nosso caminho cortando ambos.
Vou parecer repetitivo, mas tenho que relatar tudo.
Começamos uma nova subida, como é de se esperar nos Andes, sem fim. Subíamos e
subíamos, pedalada a pedalada, chão pesado, sempre com pedras e areia
vulcânica, sol forte na cabeça até avistarmos um lago azul brilhando entre
arvores. Só uma paisagem dessa para recompensar tanto sofrimento nas ladeiras.
Seguimos pedalando e começamos a descer, agora sim, a brincadeira começou.
Cortamos a cordilheira em alta, soltamos os freios e vento na cara. Muitas
curvas e os expedicionários brocando, com alforjes, peso nas mochilas, e as
bandeiras rasgando ao vento, sem medo algum. Altas tomadas dos cinegrafistas
Rei e Kadjon.
Paramos ao ver entradas ao lado esquerdo em direção ao lago
com placas indicando praia e área para camping, mas não avistamos nada de
interessante e como parecia ser longe optamos por seguir em frente. Uma boa
hora para comer as frutas do café escondidas na mochila. Já passavam das 14hs e
a fome chegava, puxei uma ameixa fresca, péssima idéia, me sobrou apenas uma
mordida, a fome já tinha chegado a todos, estávamos famintos.
Seguimos a trilha e as subidas maltratando, o folego
faltando e umas mutucas zoando para completar o martírio. Era uma mão no guidão
e outra espantando as pragas. Pedalar já estava difícil, com elas então, foi
dureza. Perdíamos a concentração e o equilíbrio. Como nada pode estar ruim o
bastante e sempre pode piorar, ouvi um estalo forte vindo de trás. Olhei por
cima do ombro e lá estava Sabrina parada. Logo em seguida. Para, para, quebrou!
Voltaram Rei e Plech para ajudar. Elson e Kadjon seguiram ao topo da ladeira.
Fiquei sentado a observar o cambio traseiro quebrado e sem conserto. A solução dada
foi cortar a corrente e tirar o cambio, ou pegar carona. Como nossa amiga é
guerreira e não pensava em desistir, seguimos com o conserto. Rei e Plech ajeitaram
tudo enquanto eu aguardava e sem perceber cochilava no automático. Alguma coisa
parecia estranha, o movimento na estrada diminuiu ao ponto de não passar mais
nem um carro. E os últimos passaram em alta levantando poeira. Nada que nos
fizesse pensar a respeito. Conserto feito, partiu!
Sabrina pedalava, andava empurrando e era empurrada por
Elsão e Rei, desculpa se mais alguém contribuiu, mas no geral foram eles
durante o maior tempo. Ainda bem que já estávamos próximos a parte mais alta e
a descida ajudou em nosso progresso. Passamos por um hotel a beira do lago, com
um belo píer de madeira. Como já passava das 15hs e nosso plano era comer e
descansar na barcaça atravessando o lago, seguimos em frente. A corrente de
Sabrina caia por segundo e nosso rendimento caiu muito.
Avistamos o posto da Aduana Argentina, que alivio, estávamos
próximos. Encostamos as bikes nas paredes por causa do vento forte e entramos
para regularizarmos nossa saída. Nosso tradutor oficial Rei juntamente com
Elson começaram a conversa, até que surgiu uma informação nada agradável. A
barcaça só fazia uma travessia por dia, as 16:00hs e estávamos a 12km de
distância, faltando apenas uns 20 minutos para a mesma partir. Ficamos todos
atordoados. O que fazer? Perguntamos
sobre o que tinha as margens do lago. E a resposta da argentina era vaga. “uma
vila chiquita”. Nenhuma certeza sobre comida, hospedagem ou até mesmo se
haveria lugar na barcaça. As informações não eram claras e ninguém opinava
sobre o que devíamos fazer. Somente a pergunta, vão sair ou permanecer na
Argentina?
Pedimos licença e começamos a discutir o assunto, tínhamos
duas opções, voltar até o hotel que passamos na estrada ou aventurar algo as
margens do lago. Após diversas opiniões e sugestões, preferimos arriscar tudo e
seguir em frente. Parece loucura. E realmente é, mas expedição é isso.
Preferimos antecipar nossa chegada ao lago e evitar novos contratempos que
poderiam surgir. Não tínhamos certeza nem se a barcaça teria lugar para nós no
dia seguinte, nem se teríamos onde dormir. O foco era completar a expedição e
voltarmos para casa. Passaporte carimbado e liberação feita, seguimos adiante.
A estrada era nossa, nenhum carro ou pessoas. Continuamos
nossa jornada até encontrarmos um casal de ciclistas, paramos logo que os
avistamos e demos sinal para pedir informação. A criatura que vinha na frente
nem respondeu nada e passou entre nós indiferente, até que a senhora que
pedalava atrás parou com um sorriso estampado em um rosto suado e de aparência
bastante cansada. Conversamos e a mesma foi muito simpática, informou que
estávamos perto, que ela estava cansada da subida, o que pra nós seria ótimo,
descida a vista. E o principal, que lá teríamos comida e hospedagem. Para ela as nossas informações não foram tão
agradáveis. A coitada estava longe de San Martin e teria muitas subidas pela
frente.
Chegamos a Aduana Chilena, uma construção de madeira nova,
com uma grande área envidraçada, onde podemos ver equipamentos para vistoria de
bagagem. Tudo muito bem organizado, inclusive o atendimento prestado pelos
chilenos, que novamente nos revistaram e foram em busca de nossos poucos
lanches que tínhamos. Ou comíamos nossos lanches ou iria tudo para o lixo.
Jamais! Comemos tudo com o maior prazer. Pena que era pouco. Conseguimos até
enviar notícias para nossos familiares através da wi-fi deles. Bebemos águas,
banheiros limpos e um pouco de descanso.
No caminho passamos por umas
fazendas e uma bela escola no mesmo padrão da aduana, tudo muito bem feito e
muito novo. Quando estávamos a poucos quilômetros Elson teve a idéia de nos
separarmos para adiantar a chegada, pois Sabrina não conseguia acompanhar com a
corrente da bike que teimava em cair. Seguimos então Rei, eu e Plech. Quando
avistamos algumas cabanas e o lago, ganhamos folego e aceleramos. Tinha uma grande cabana em madeira a direita com duas menores
ao lado, uma fazenda a esquerda e o píer a margem do lago, uma imagem
digna de uma pintura. A cordilheira coberta pela vegetação, com um lago e
construções em madeira em volta. Paramos em frente a grande casa e logo
conseguimos ler as placas informando que havia comida e hospedagem. Ufa! Logo
em seguida chegaram todos e entramos para explorar. Estávamos em Pirehueico.
O cardápio estava estendido na
parede, tinha de tudo, carne, peixe, lanches, etc. Estávamos animados, já
passava das 17:00 e nossa última refeição decente foi o café da manhã. A
atendente bastante simpática se aproximou e nos informou que só tinha
hamburguesas. Como é que é?!!! Hamburguesas de novo??? Paciência, quem está com
fome não escolhe. Pedimos as hamburguesas. Alguns ainda comeram duas, não foi
meu caso. Apenas uma para sobreviver mesmo. Perguntaram a atendente sobre
hospedagem e ela mostrou os quartos no andar de cima. Não agradou muito mas era
o que tinha. Até ela falar em um chalé que tinha na fazenda em frente.
Perfeito! Era pouco para
descrever o chalé. Com uma vista para o lago, 03 quartos, sanitário com
banheira, água quente aquecida a gás, lareira, tudo primorosamente decorado e
com toalhas brancas. Acho que só em conto de fadas ou em expedições do Mural.
Como fadas não existem até que me provem o contrário, só podia ser Expedição do
Mural. Era tudo que precisávamos para compensar o dia e o cansaço. Todos tomados
banhos, alimentados e aquecidos o que fazer para passar o tempo, já que foi o
primeiro dia a chegarmos literalmente de dia e com tempo para descansar. Nino e
Plech foram em busca de umas bebidas para comemorarmos.
Chegaram com um litro de Pisco
(Cachaça típica Chilena) e uma tetra pak de vinho tinto Concha y Toro. Além de
uns alfajors. Agora sim estávamos sendo recompensados. Plech acendeu a lareira,
Kadjon contou mais umas 200 piadas e o Pisco fazia a farra. Até que lembramos
de Maurão, e surgiu a ideia de fazer um vídeo para ele. Teve ensaio, efeitos
especiais e excessos de drama, um show de talentos desconhecidos... kkkkkkkkkk (VEJAM O VÍDEO!). Só vendo para acreditar, o
vídeo ficou show!!!! Daí foram horas e horas de risos e repetições do vídeo até
Kadjon recomeçar as piadas e o cansaço começar a levar um a um para cama.
Um dia completo, com tudo que uma
expedição do Mural proporciona, emoção, superação, desespero, força, coragem,
alegria e muita amizade. Agradeço a todos os expedicionários da família TransAndes,
até a próxima. Odilardo Pimentel de
Figueiredo Filho (Odi).
VEJAM O VÍDEO: SAUDADE DE MAURÃO!
CLIQUE NAS IMAGENS PARA AMPLIAR


















3 comentários:
show....em breve vou colocar uma expedição dessas no meu curiculo....quase chorei por maurão nesse video.....kkkkkkkk BMMP
Odi valeu pela resenha, ficou ótima! Engraçado como algumas passagens haviam se perdido da minha memória. Foi muito bom relembrá-las lendo a resenha e vendo as fotos. Estava lendo com a vontade que o texto não acabasse, é como se estivesse nas trilhas com vocês novamente. Que SAUDADE de todos esses momentos. Obrigado a todos os expedicionários por essa maravilhosa aventura.
BORA MURAL!!!
Feliz por fazer parte dessa família e aventura! Parabéns pela resenha, Odi. Suas palavras descreveram exatamente como foi o nosso dia e para minha infelicidade, a quebra do câmbio. Bora Mural
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