4h15 da madrugada, breu ainda e
me levanto sobressaltado, teoricamente já deveria estar a caminho de pegar meu
lugar no Mural Móvel. Hoje finalmente conheceria a Ilha dos Frades. Converso
com Elson, chamo o ubis e me vem um voyage. Foi preciso o desmonte quase
completo da Filomena e do interior do carro para que eu seguisse direto para o
Rei da Pamonha. Acostumado a um espaçoso porta malas de um táxi Logan que me
leva e às bicicletas para o sertão de Pitangui, contenho-me para não amaldiçoar
todos os sedãs da face da terra. Surpreendentemente, chego primeiro lá no ponto
combinado e espero bons minutos. Chega o dono e Tácalis, depois Rei(naldo.).
Desenrolada a arrumação, é hora de seguirmos.
Eu tinha informações nada
promissoras sobre Madre de Deus. Em poucos minutos em trânsito pela principal
via, que dá acesso ao Terminal da Transpetro, vi larápios se arriscando para
pegar míseros litros de óleo na apodrecida estrada. No estacionamento da
cidade, defronte ao píer, confirmei o desastre visual. Como foram construír um
gasoduto sobre um mangue que praticamente impede a vista da baía a todos os
moradores? Talvez seja a longa tradição brasileira de trocarmos o direito ao
meio ambiente por um duvidoso desenvolvimento, sob o argumento do medo puro e
simples. Ito chega pedalando de Candeias, feliz da vida após 17km. Também seria
sua primeira vez na Ilha dos Frades, logo ele, filho da região. Transpostos os
tubos gigantes do píer, a fealdade instaurada logo seria substituída pelo
encantamento no cais. Já sobre o mar,
numa pequena embarcação, com uma viseira sobre o olho esquerdo é possível se
concentrar à frente, naquele antigo entreposto de escravos e leprosário dos
jesuítas, também na Capela de Nossa Senhora do Loreto, cuja construção remonta
ao século XVII. À esquerda, adentrando a baía, fica um terminal de combustíveis
que destoa da riqueza arquitetônica e natural à frente, com arrecifes ao lado
da praia limpa e de águas transparentes que leva o nome da Igreja.
Desembarcamos na Praia de Paramana e o proprietário tratou rapidamente de
reservar o almoço.
Os 25 quilômetros começariam na
subida de uma ladeira infindável. Finalmente sobre o selim, pegamos estradinhas
bem comportadas e logo experimentamos o melhor mtb à que tive acesso nesses
quase 4000 km e 10 meses de Mural: logo após a entrada do tanque de água da
ilha, uma descida em trilha coberta por folhas, fluida, com lombadas e
depressões suaves entremeadas por raízes, desconhecida do proprietor e dos
demais, fornecia a mais pura diversão e me remetia a um caminho numa das saídas
de minha cidade natal em Minas, hoje tomada por usuários de crack e
desaconselhável a qualquer hora do dia. O trajeto fradiano tinha menos de um
quilômetro e desembocava numa encruzilhada, já desbravada pelo Mural. O dono
experimentou nessa descida uma quebra de corrente, nada que um “páuerlinque"
alheio e uma boa ferramenta de corrente não resolvesse. Atravessamos um açude e
construções em madeira e pedra, torres de vigilância, aterros, represas e dois
heliportos de grande porte. Pegamos uma estradinha e de repente nos vimos
cercados por “ursinhos carinhosos”, que emitiram arco íris de afeto e alegria a
todos. Deve ter sido o efeito da combinação de sol e tegretol que me forneceu
essa visão. Vieram subidas curtas mas terríveis, com até 20% de inclinação, e
chegamos ao mirante da Ponta de Nossa Senhora, de onde se divisa um dos cantos
mais bonitos do litoral baiano, uma praia que ganhou o selo Bandeira Azul de
balneabilidade e limpeza neste ano. Ao fundo, os prédios da Barra indicavam que
Salvador estava logo ali. Após pouco mais de 12km, descemos rumo à praia.
A Igreja de Nossa Senhora de
Guadalupe foi reerguida, assim como a escadaria que dá acesso a ela, outrora em
ruínas. Na praia, de fato magnífica, banheiros, passeios em pedra e gramados
nos remetiam às muitas praias sem rosto dos rezórtis mundo afora, nessa
descaracterização tosca em que imergimos. Paramos num bar localizado numa casa
de moradores, onde a esperteza do Dono reduziu o valor da conta, afinal todos
ali viráramos "soteropolitanos legítimos", mesmo eu que não saiba
onde fica a Engomadeira. Muitas cervejas à base de milho transgênico, camarões
e peixes delícia fritos depois, saímos por volta do horário mais apropriado
para adquirirmos também um câncer de pele.
A volta passa quase pelo mesmo
caminho. Quase. O mote de Leonov ,"onde é o pior?", mandou notícias,
embrenhamo-nos no mato grosso, por galhos caídos e morros intermináveis.
Finalmente alcançamos uma antena de transmissão de celular. Após nos abalarmos
por essa descida, chegamos ao cerimonial atrás da Igreja do Loreto, homenagem à
uma cidadezinha italiana, onde insisti para conhecermos a construção. O melhor
estava ali, uma praia límpida e sem gente. Aliás, as bóias no quebra mar, "Luciano
Angra dos Reis Huck Remember", apontavam justamente outras vibrações.
Boiei como um náufrago por uns poucos minutos, os demais nadaram ali nas águas
tépidas, a maré subia e era hora de visitarmos a edificação religiosa. Ali a
relações públicas da Fundação Baía Viva nos esperava, pedi que abrisse o
templo. Era uma sensação estranha, ao mesmo tempo em que gostava de estar
naquele local, passava um desconforto. Como se tivesse naquele momento que
decidir entre a trilha dos saltimbancos trapalhões ou a música incidental do
senador Palpatine de Guerra nas Estrelas.
Partimos para outra comidaria, já
em Panarama. Uma super moqueca de camarão e outra turbinada de siri nos
aguardavam em Paramana. Ito ainda colaboraria com a Monsanto, inoculando no
juízo outras cervejas de nome impronunciável. Ele teria outros 17km de estrada
fervente para evaporá-las. No cais, enquanto esperávamos pela embarcação das
15h, um bêbado se aproximou e nos perguntou como havíamos pedalado ali. Disse
ainda que, filho da Ilha, não podia circular de bicicleta em seu interior.
Outra vez o Mural havia logrado sucesso. De volta à Madre de Deus ia matutando.
Resumo: 25km, clima de torpor
moçambicano, topografia crespa, 800 metros de subida acumulada, 3h de pedal
efetivo. Belezas e perigos sem fim. Neylor Bahia (Mineiro).
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Um comentário:
Parabéns Mineiro pela resenha e as palavras bonitas! Rsrs.
Ficou show!!!
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