Acordei,
hoje, interrompendo um péssimo pesadelo: sonhei que estava me afogando e
morrendo sem ar... Isso só acontece todos os dias quando você dorme despreparado
para vencer o ar rarefeito de La Paz, rsrrs!
Portanto,
acordar às 04h é normal para o organismo que não está acostumado com o fuso e
daí você começa a lembrar das curvas e das nuvens cortando a estrada da morte e
sonhar acordado imaginando como será a aventura deste novo dia!
17
de setembro, 7h - hora de descer para encontrar o pessoal e tomar café da manhã.
Logo, logo, chega Manolo... nosso guia esperto com seu furgão azul, todo
empolgado para colocar as bikes em seus devidos lugares. Após estômago forrado
de torradas recheadas de geléia de maçã e um belo suco de pêssego, seguimos
para colocar todo o equipamento no carro, pois a partir daquele dia não
teríamos mais a alegre companhia do Manolo (para Herrera, vulgo Cabron, rsrs).
A partir do terceiro dia, os alforjes e todo o equipamento seriam nossos
pesados parceiros para desbravar as subidas e as nuvens não seriam o limite,
pode ter certeza disso!
Nossa
primeira surpresa do dia foi ao abrir a porta de saída do Hotel Sarganaga,
recebemos nos peitos o frio cabuloso de 4ºC mas, tudo bem, vamos partir...
Sorata nos espera!
Antes
de sair da cidade, seguimos para o aeroporto em El Alto (parte mais alta de La
Paz) para cambiar reais por bolivianos e solles peruanos e Herrera aproveitou
para distribuir água quente para nosso primeiro chá de coca do dia... foi nossa
salvação!
Foram cerca de 30km de um
estradão deserto e de uma paisagem única com muitas montanhas, uma forração
tostada pelo frio e muitas casinhas sem reboco até que vimos ao longe uma malha
azul se destacando ao meio da vegetação rasteira. Ali, começava uma pontinha do
grande Lago Titicaca.
Bem,
seguimos viagem e logo saímos dos 3.811m de altitude para mais e mais, até
chegar numa pequena cidade onde achamos super intrigante a quantidade de cães
na margem da estrada. Logo percebemos que eles estavam aguardando a comida que
era jogada pela janela dos carros e como nosso mestre Elson comprou umas
bolachas duras, que pareciam pedras, aproveitamos para alimentar a matilha...
jogamos as bolachas e muitos cheiravam, admiravam e não tinham coragem de dar
uma mordidinha... acho que eles já conheciam a especiaria petrificada, rsrsrs!
E
vamos subir, subir, até encontrar uma estrada camuflada pela vegetação. O
grande furgão azul começou a desbravar a estrada de pedras soltas, as quais não
ajudavam nada para melhorar nossa coragem. Muita angústia, pois depois de
alguns metros “arriba”, a estrada dividia a paisagem com um penhasco sem
tamanho, do mesmo lado que eu estava sentado no carro. As filmagens ficaram
assustadoras e a emoção e adrenalina começaram a tomar espaço. Percebemos que
estávamos mais próximos da nossa aventura muralizada com muita expectativa, rsrs!
Quando
percebemos a freada brusca do pé de pedra Manolo... PARTIU MURAL! CHEGAMOS!
Foi muito engraçado, 4.200m de altitude, uma dor
de cabeça infernal e um ar rarefeito desgraçado que parecia feito de isopor e
não de oxigênio. A dor de cabeça só passou com “Sorojipill”, pílula mágica e
abençoada que inibe o efeito do Soroche (mal da montanha).
Vamos
voltar para a resenha, que é o que interessa. Depois da freada... ao abrir a
porta do carro, outra pancada nos peitos... toma lá 3ºC sem piedade do vento
que soprava da montanha gigante, coberta de gelo, que forma a lindíssima
Cordilheira dos Andes.
Colocamos
tudo que tínhamos para amenizar o frio: balaclava, luva impermeável, gorro,
meia impermeável, segunda pele e até corta vento por cima de tudo! Aí conseguimos
sair seguros do carro. Elsão saiu apenas com short porém protegido com o couro
de sapo natural! Todos diziam que o cara tem couro de sapo mas, isso se explica
com a experiência vivida na Expedição Deserto do Atacama, onde ele passou maus
bocados com baixas temperaturas!
Saímos
do carro, já seguros e prontos para a tão esperada descida de La Cumbre para
Sorata. Quando liguei o Garmin achei que estava quebrado: 4.496m de altitude. E
isso não foi o pico mais alto que conseguimos alcançar nesse dia, pedalando!
Depois
de montadas as bikes chegou a hora de PARTIR! Manolo ficou impressionado com a
paisagem que morando a tanto tempo tão perto, não tinha conhecido antes... só o
Mural de Aventuras, do Brasil, da Bahia para dar a ele essa oportunidade.
Tiramos
uma bela foto com a Cordilheira coberta de nuvens ao fundo com a velha bandeira
do Brasil que meu pai me deu e que levo sempre para todas as aventuras e claro,
junto com ela a bandeira guerreira do Mural de Aventuras!
No
primeiro trecho, desbravamos seguramente topos e vales entrincheirados de
pedras. Porém, a surpresa maior veio depois do segundo pico... as trincheiras
se transformaram em verdadeiros abismos, se parássemos um pouco para admirar o
precipício, vinham logo na cabeça os pensamentos: - O que estou fazendo aqui? Se
minha mãe soubesse disso antes, me deixaria de castigo para não viajar, rsrsr!
O
engraçado é que quanto mais pedalávamos, mais estreita ficava a trilha, até que
chegamos num cume onde tinha uma falha no terreno. Todo mundo estava amedrontado
e Elsão gritou Mural nas Alturas! Isso
causou uma euforia enorme em todos. A energia superou o medo e continuamos na
aventura. Mais à frente, Marão estava muito ofegante e não seria diferente ao
atingir o máximo de 4.590m de altitude. Logo vi Herrera em sua vertigem e
envergado querendo vomitar... o baianim paulistano sentiu no pulmão! Mas, o
bicho tem sangue nos “zói” e logo à frente, já com Odilardo, GDI e Maurão já
seguindo pelo estradão de asfalto, eu e Elsão também decidimos seguir pela
parte mais segura. A partir deste ponto, ele, Rei e Guga seguiram pelo
desfiladeiro desbravando encostas e picos assustadores... Os Muralistas que superaram
o medo e pontos que jamais eu tentaria ir... Parabéns aos amigos que me representam
nas cenas de perigo!
Logo
que pegamos o estradão, vimos de um ponto mais baixo a beleza do lugar que
tínhamos desbravado. Neste momento podemos sentir o quanto é prazeroso ter
essas histórias para contar com emoção! Reencontramos Odilardo, Maurão e GDI e
o querido Manolo que ficou impressionado com a nossa coragem!!
Continuamos
descendo e logo à frente paramos num mirante perfeito, onde o vento quase não nos
deixava abrir as bandeiras para uma foto. Ficamos um pouco e voltamos a descer,
descer e, no final, vimos que descemos cerca de 16km. A alegria durou pouco...
antes de entrar em Sorata tivemos o desfrute de uma ladeira que sumia entre as
curvas... questão de final de prova mas, vencemos!
Quando
entramos na cidade, estava acontecendo uma feira na praça principal que por
sinal, encheram meus olhos com tamareiras gigantes e um jardim perfeito que
nunca imaginava encontrar num lugar tão inóspito.
Logo
fomos encontrando opções de hospedagem, mas nossa decisão foi certeira, ficamos
no Hotel Panchita, que parecia mais com a Vila do Chaves do que com um hotel...
muito engraçado porém, tinha wi-fi.
Aproveitamos
o final do dia para comemorar, comer um espaguete delicioso feito pela Mariah e
servido pelo pequeno. Demos muitas risadas com as histórias do dia! Neste
momento, aproveitei para matar minha curiosidade conhecendo frutas que estavam
sendo vendidas na feira e encontrei um abacaxi muito diferente, para eles
conhecido como Piña (pinha, para
nós). Fomos logo comprando para experimentar e não perdemos o dinheiro, pois
estava super saborosa.
Acomodamos
as bikes nos quartos, organizamos os alforjes e materiais para o próximo dia
seguir nossa última viagem com a companhia de Manolo, nosso braço direito
boliviano. Bora Mural! Kadjon Layno.
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Um comentário:
Elson, as fotos estão ótimas!!@!! Agora...que venha Pirineus
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