Amanheceu no Vale do Pati, a bruma envolvia as montanhas e
um clima ameno imperava. Chegava a hora de sair da casa de Dona Raquel e rumar,
morro acima, para o mirante do vale e, de lá, para o Vale do Capão. No café, um
pão caseiro feito na hora nos presenteava com energia ao montes. Não era mais
tempo para experimentar a cachaça de banana ou de ouvir o seu João tocar sua
sanfona, dentre as mágicas que aquele lugar nos reserva. Daquele pouso
encantado sairíamos para uma prática fundeada na Grécia antiga, talvez cedo
demais. O morro do Castelo e sua gruta ficariam para outra ocasião.
Passamos primeiro no amigo de Leonov, o senhor Wilson, um
dos anfitriões daquele espaço espremido no vale do Rio Andaraí. Conta-se que
ali os primeiros habitantes chegaram no final do século XIX, açoitados por uma
grave seca. A umidade permitiu que mais de duas mil pessoas cuidassem de
plantações de café, banana e de extração de palmito, além da coleta de
diamantes em pequena escala. Ali córregos e nascentes formam a base do Rio
Paraguaçu, que abastece a Região Metropolitana de Salvador, distante quase 500 quilômetros,
Por isso é chamada de "Caixa D´água da Bahia". Em fins da década de
50 o governo federal comprou a produção nacional de café e a queimou, a fim de
aumentar o preço no mercado internacional. Isso provocou o êxodo dos
sertanejos, hoje resumidos a treze famílias, de acordo com o relato do Parque
Nacional da Chapada Diamantina. O povo patizeiro vive agora do ecoturismo. Em
mais de 60 anos a mata recuperou, em parte, seu espaço e nos agracia com raros
cenários.
Continuamos a rodar e
logo depois da primeira parada sequestramos um guia que seguia descalço e
conduzia uma família de turistas. Ele nos deu a dica da trilha do Cruzeiro,
praticamente invisível do Mirante do Pati, e também para o caminho da Igrejinha
do Senhor do Bomfim. Disse ainda: "esse povo ciclista ama o
sofrimento". Então o largamos e fomos para a Cruz. Difícil escalada,
amenizada por uma paisagem de encantamento. Os mais de dois mil quilômetros
entre Ouro Branco e Sento Sé possivelmente ali possuem o maior esplendor da
Cordilheira do Espinhaço. Quem sabe, nas estradinhas próximas à Cabeça de Boi,
distrito de Itambé do Mato Dentro, veria algo tão marcante. Não havia
cachoeiras recentes formadas pela chuva, sequer passamos pela do Funil ou por
outra de maior dimensão, mas ali encontrava a perplexidade. Para mim, seria
impossível entender e tentar descrever tamanha beleza. Recorro à "Hotel
Toffolo", do livro Claro Enigma, de Drummond:
E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.
Como se a cidade não nos servisse o seu pão
de nuvens.
Não, hoteleiro, nosso repasto é interior
e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se comunica,
tudo, no coração, é ceia.
No Camping da Igrejinha encontramo-nos com um grupo de
trilheiras de Salvador e fizemos uma pausa para uma leve refeição de carne de
sol e suco de abacaxi. Não havíamos percorrido 3,5km em meia hora e a subida da
"Rampa" que nos separava do Mirante do Pati nos aguardava. Levamos
cerca de uma hora e meia com as bicicletas nas costas para percorrermos os 140
metros de morro acumulado até a "BR" do alto do Vale, conforme alguns
guias nos falaram anteriormente. Perto da chegada ao Mirante, fui ultrapassado
por dois tropeiros e três burrinhos com as bruacas vazias, que seguiam para
buscar víveres a duas, três horas dali, talvez no Guiné. Mas também descansavam
por lá dois gêmeos alemães, dentre vários viajantes da Deutschland pelos quais
passamos em apenas três dias de Chapada. Povo sabido esse que não se abala por
um oceano, aprende rudimentos de português e se afunda pelo Brasil profundo
para ver o incompreensível.
No mirante do Pati nos frustramos com a inexistência do
"moço do suco natural", produzimos mais centenas de imagens e avançamos
por um terreno escuro, quebradiço e de vegetação rasteira até o ponto mais alto
da viagem, a 1422 metros de altitude. Dali literalmente nos despencamos para o
Quebra Bunda, trilha de pedras disposta a nos arrebentar nos escorregões.
Convoco aqui meu amigo Jim, o que abriu as portas da
percepção:
Not to
touch the earth
Not to see
the sun
Nothing
left to do, but
Run, run,
run
Let's run
Let's run
Surpreendentemente, como se a jornada não fosse toda ela
feita de deslumbramentos, chegamos quase inteiros ao final desse trecho. Havia
ainda um trecho longo até o início da "Bomba", outro caminho de
pedras que desemboca nas proximidades da Vila do Capão, como é conhecido
distrito de Caeté Açu, na cidade de Palmeiras. No início do longo declive o
proprietário disse a senha: "Larga!", para logo depois se espatifar
num toco traiçoeiro e ter seu suporte de computador destruído. Felizmente,
tirando a argila branca que o cobria, ele havia se safado. Muitos trechos de
descida em rocha depois, era a vez de eu mesmo me tornar vizinho do dono e me
integrar à natureza, me abraçando às samambaias que cobriam o lado esquerdo do
percurso. Assim me tornei também possuidor de uma escritura na Chapada.
Esperamos o grupo se juntar próximos à placa do Ibama. (Nota triste: ali e em
poucos momentos em que cruzávamos com os guarda parques sentíamos estar num
Parque Nacional, tamanha a ausência de sinalização e de qualquer outro cuidado
com os caminhos.).Mara e Carla traziam um tênis perdido por Leonov. O dia havia
sido extenuante. Mas era a hora da travessia de três córregos, um mais belo que
o outro, para logo depois concluirmos o trecho mais bonito dessa parte num bar
local, com creme de cupuaçu e magníficos pastéis de palma de jaca.



















